A tradicional família brasileira e suas incríveis histórias de amor.

Estamos caminhando para o nono mês do ano – Considerando que nove meses é o tempo necessário para gestar uma vida, gostaria de iniciar este texto com uma pergunta: O que a humanidade gestou para si mesma nos últimos tempos? E o Brasil? Qual futuro que nascerá das entranhas deste país confuso e sem rumo? Confesso que quando propus a mim mesma o desafio de escrever semanalmente um apanhado de notícias e fatos, sabia que haveria muita coisa absurda a ser comentada – E a ideia era justamente trabalhar com esses absurdos, criando um efeito de ironia e humor – Mas a situações apresentadas tem sido tão surreais que não consigo utilizar humor, ironia ou mesmo esperança. Apenas raiva e perplexidade. Em alguns momentos imagino que, daqui a cinqüenta, setenta anos, alguém irá ler estes textos e pensar “Não é possível! Esse país gigantesco viveu momentos de delírio coletivo” – Mas me deparo com outras realidades que me fazem pensar que talvez, daqui a setenta anos, não exista sequer humanidade, e isso não apenas pelos 25 milhões de infectados pelo COVID no mundo, mas por todo o contexto que acompanha a pandemia: No Brasil ainda permanece um clima de negacionismo, aquela lenda de que “é só uma gripezinha” pode não estar mais sendo comentada ostensivamente pelo governo, que nas últimas semanas está ao menos tentando fingir que trabalha – Já de olho nas eleições de 2022. A “boiada” citada por Salles na reunião ministerial vem passando enquanto nossas matas queimam: Amazônia, Pantanal, cerrado brasileiro – Tudo se desfaz em fumaça. O futuro da nação sobe aos céus em grossas nuvens negras. Mas o importante é que agora, a despeito da pandemia, o “novo normal” se instale e as pessoas possam ir até a praia, ao barzinho ou ao shopping – Para que manter o distanciamento social e aproveitar para pensar sobre o meio ambiente? E o Meio Ambiente não foi o único setor a apresentar retrocessos no Brasil – Num país onde os níveis de violência contra a mulher são alarmantes, uma recente mudança obriga médicos a encaminharem à polícia os casos onde a mulher procure o aborto alegando estupro – Tal medida é uma humilhação e possivelmente afaste ainda mais as mulheres vítimas de violência da busca por um atendimento médico ao qual elas têm direito – O importante é manter a sagrada e tradicional família brasileira, mesmo que para isso vidas sejam destruídas. Aliás, emocionante a história da Deputada Flordelis: Uma trama de amor onde ela casou com o filho adotivo, que era também seu ex-genro e acabou comendo capim pela raiz a mando dela – afinal, Deus deve se escandalizar mais com o divorcio do que com o assassinato. Sim, essa pessoa é uma ardorosa defensora da tal “família tradicional” – E não, eu não estou aqui para julgar a moral dela ao namorar o filho adotivo, o que ela faz na intimidade do lar é problema que compete apenas a ela mesma. Entretanto acredito que seja necessário pontuar que ela, assim como vários outros membros e apoiadores do atual governo, gritam e esperneiam seus slogans antiquados – Deus, Pátria e Família – Enquanto destroem o país, vendem nossas riquezas a preço de banana e destroem famílias através de políticas genocidas. Ou será que o novo normal é assassinar o marido? Pensando bem, talvez seja melhor mudarmos nossa bandeira – Podemos colocar deserto no lugar do verde, lama no lugar do amarelo, cinza no lugar do azul, cruzes do lugar de estrelas e na faixa central, substituir “Ordem e Progresso” por “Desgoverno e seus regressos”. E pelo cavalgar do cavalo manco, eu nem conto para vocês onde deve estar introduzido o mastro da bandeira…

Este texto faz parte do BEDA: Blog Every Day August

Ale HelgaViviane ChrisClaudiaObdulionoDricaMariana Gouveia – Lunna Guedes – Adriana