Distopia Brasil: Entre frio, incêndios, crimes, infâncias roubadas e apalpadelas.

Os fatos desta semana dialogam diretamente com um texto que escrevi aqui tempos atrás sobre os que se auto-intitulam “pró-vida”. Sinceramente, gostaria que eles explicassem pró-vida de quem?  Semana passada, comentei sobre a menina de dez anos grávida que lutava para fazer valer seu direito já garantido de abortar o fruto dos estupros que sofreu desde os seis anos de idade. Segundo a imprensa noticiou, o procedimento foi feito e a menina está se recuperando – O que não muda o fato de que para muitos, ela é a assassina cruel. Não o tio que a violentou. Ela. Uma criança de dez anos de idade. Esse tipo de notícia ressalta a importância de lançarmos fora os véus religiosos e discutir educação sexual e aborto como duas fundamentais questões de saúde pública – Não importa o que diz o pastor, o padre, o guia – Importa manter as mulheres vivas. Importa explicar para nossas crianças sobre como se proteger de adultos que, muitas vezes, fazem parte da família. As leis podem e devem garantir a todas e todos o seu direito de culto (ou de ateísmo), mas jamais podem ser atadas a qualquer tipo de filosofia ou religião. Parece uma coisa lógica, mas infelizmente estamos em 2020 e ainda é necessário gritar com todas as forças que o Estado é laico. E por falar em Estado laico, sabemos que o nosso falhou miseravelmente quando vemos que o país superou largamente os cento e dez mil mortos na pandemia e ainda assim há que exerça pressão para que aulas sejam retomadas, expondo assim crianças, professores, funcionários e familiares ao contágio da COVID-19 – Mais interessante ainda é perceber que muitos que hoje desejam o retorno das aulas presenciais faziam parte de um grupo que clamava pelo direito de educar seus filhos em casa, longe das “influências esquerdistas da escola”. Descobriram que não possuem capacidade para educar uma criança ou apenas querem acelerar o genocídio, fazendo pressão para que as escolas reabram para que os filhos da classe trabalhadora retomem as atividades e por conseqüência, contraiam o vírus, enquanto os das classes mais abastadas permanecem em casa? Embora saiba que esses acéfalos não conseguem educar uma criança, sou mais tentada a acreditar na segunda hipótese: Gritam pelo retorno à normalidade enquanto se protegem em suas casas e deixam que a classe trabalhadora pague com a vida pela crise econômica agravada pela pandemia. Por falar em pagar, um triste fato se impõe: Quem conseguir sobreviver ao vírus irá lidar ainda por muitos anos com outra dívida: A ambiental. Enquanto o frio chega com força em muitas regiões do país, em outras o fogo segue destruindo florestas e esperanças de ter um meio ambiente equilibrado – Não precisa ser uma pessoa de inteligência acima do normal para saber que, sem meio ambiente equilibrado, não é possível a construção de uma sociedade onde as pessoas consigam ter uma vida digna?

Outra notícia preocupante: No Distrito Federal uma lei proíbe nudez nas exposições de arte. Completamente incoerente e desnecessária a lei pode servir de brecha para jogar o país numa nova idade das trevas, iniciando pela censura de obras que no mundo inteiro são admiradas – É só observar a nudez presente nas pinturas clássicas.

Para fechar este pequeno giro semanal, eu não poderia deixar de comentar a última trapalhada do presidente: Ao comparecer – sem máscara de proteção – a um evento de inauguração da central termoelétrica no Sergipe, Bolsonaro ergueu um anão no colo, acreditando tratar-se de uma criança (ou será que ele queria massagear as partes íntimas do homem?) Vocês devem estar pensando “Ah! Mas isso não é tão grave! Nem merece o tempo de escrever esse texto”. É, não merece. Se todo erro do governo fosse confundir anões com crianças, o país estaria caminhando bem. O problema, no caso de Bolsonaro está além de uma mera trapalhada, vai além mesmo da desinformação e da visível ausência de inteligência – O problema de Bolsonaro e seus seguidores é o ódio que cria, alimenta e espalha: Depois de uma semana de aparentemente auto-controle, Bolsonaro, ao ser questionado sobre os depósitos feitos por Queiroz na conta da primeira-dama Michele, respondeu que a vontade dele seria “encher a boca do repórter de porrada”, em mais uma demonstração clara de sua violência e falta de respeito. Inadmissível um chefe nacional dirigir-se assim a um jornalista! A questão que não quer calar: Será que nas eleições de novembro deste ano, as pessoas irão se atentar na hora do voto e começar uma verdadeira limpeza e renovação, escolhendo nomes que não estejam ligados ao bolsonarismo – ou irão ampliar em suas cidades os efeitos maléficos da grande tragédia que foi para o país a eleição de Bolsonaro? Questões que acompanharemos nos próximos capítulos desta distopia chamada Brasil 2020.

Este post faz parte do BEDA – Blog Every Day August. Também participam:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Ale Helga – ChrisViviane AlmeidaDrica AdrianaObdulionoClaudia