As taxas que nos atingem tiram uma pedra do sapato de quem nos pisoteia sem pena.

Que semana! Entre tantas notícias lidas, a vontade é de simplesmente esquecer que prometi a vocês, leitores e leitoras, e acima de tudo, a mim mesma, escrever algo breve sobre a semana que se passou. Tivemos de tudo: Tornado de fogo nos Estados Unidos, despejo de famílias que viviam e produziam alimentos orgânicos há mais de vinte anos em Minas Gerais, aprofundamento da crise causada pela COVID-19, criança de dez anos grávida após ser estuprada pelo tio lutando na justiça para conseguir o aborto, que já seria seu direito garantido devido às circunstâncias – E agora pouco fiquei sabendo que aquela apoiadora do governo que estrelou protestos à la Ku Klus Klan, expôs o nome da criança e o local onde finalmente faria o aborto, causando aglomeração e protestos contra o médico e a menina – Pois é, como eu disse em outro texto, são os pró-vida, mas, pró-vida só até o nascimento, depois, cada um se vire, e se crescer e sair da linha, já sabem ‘né’? Os mesmos que defenderam o nascimento do feto estarão de prontidão para defender a pena de morte. Enfim, tanta coisa ruim que irá demorar a mudar, não é? Então vamos falar de algo que ainda podemos (e devemos) tentar impedir: Paulo Guedes, nosso Ministro da Economia, pretende instituir um imposto de 12% sobre os livros. Não sei se vocês que me leem sabem, mas livros são isentos de impostos de acordo com a Constituição Federal (Aquela, promulgada em 1988, mais retalhada que roupa de caipira da festa junina e tantas vezes jogada para debaixo do tapete por interesses escusos). O citado ministro alega que livros são coisas consumidas pela elite. Ora, basta percorrer uma livraria e perceberemos que os valores são, muitas vezes, proibitivos –É impossível que uma família que vive de salário mínimo compre livros novos com freqüência, eu mesmas dificilmente consigo comprar algo novo, geralmente me viro com sebos, grupos de trocas, bibliotecas – Mas eu já tive o hábito de leitura enraizado desde pequena. Eu ganhava livros (muitas vezes novos) como presente, eu não posso medir pela minha régua a vida de crianças e adolescentes que irão ter pouco ou nenhum acesso aos livros ou incentivo a buscá-los. Entretanto, a classe média compra livros, e depois, muitas vezes, revende nesses sebos que permitem que, não sem esforço, outras camadas sociais possam ter o mínimo acesso ao mundo das letras. Acontece que, com a crise econômica, a dita classe média tende a caminhar cada vez mais rumo a um menor padrão de vida – E qual será um dos primeiros cortes no orçamento? Geralmente o lazer – E atentem-se, livros, para muitas pessoas, são vistos como mero lazer, algo não essencial.Diminuindo o consumo do produto livro pela classe média, diminuirá também os livros que chegam a sebos ou são doados para bibliotecas comunitárias. Vocês percebem o quanto a cobrança de um imposto sobre os livros irá aprofundar o abismo social brasileiro?  A pessoa que vos escreve está longe de ser perfeita e com certeza não merece o título de “intelectual”, mas ainda assim, tenho certeza de que minha formação só foi possível por ter usado grande parte da minha infância e adolescência lendo. Então, se tem uma mudança que, neste exato momento, devemos impedir, é esse imposto. Outras mudanças, que efetivamente precisamos fazer, só serão possíveis se as próximas gerações conseguirem obter uma formação completa e concreta – Do nosso modelo econômico às questões ambientais, muito há que se mudar em busca de um mundo justo, onde efetivamente haja liberdade e igualdade, e, sinceramente, já não acredito que a minha geração, que está às portas dos trinta e cinco anos, conseguirá ver este tal mundo justo, talvez consiga auxiliar a nova geração para que siga nesta construção. Agora, já sabemos que livros não devem ser taxados, que educação e saúde não são mercadorias e devem ser universais e gratuitas, então, de onde o governo pode tirar dinheiro? Bom, tem uma listinha de coisas que poderiam ser taxadas e não são, vamos conferir? Igrejas e templos religiosos em geral – Vocês já pararam para pensar na quantidade de dinheiro que circula diariamente nas grandes igrejas (especialmente certas instituições que cobram dízimo por boleto, vendem lenços ungidos, feijões mágicos como cura da COVID e tantas outras barbaridades) Agora, imaginem quanto dinheiro o governo poderia arrecadar se decidisse cobrar 12% do patrimônio destes templos – Incluindo aí o dízimo ofertado pelos fiéis. Isso arrecadaria dinheiro e não prejudicaria o acesso a cultura e informação. E antes que alguém me avise que a isenção de imposto para igrejas também está na Constituição, eu já respondo: Se podem pisar, enxovalhar, picar e mudar o texto tantas vezes, se podem pensar em modificar para taxar livros, podem modificar para taxar igrejas também. Outra coisa boa para se taxar: Jatinhos, iates, helicópteros. Você acha justo pagar um IPVA altíssimo no teu carro ou moto e saber que jatos e iates não pagam nenhum imposto semelhante? Quem consegue comprar um jato, poderia pagar impostos. Uma terceira coisa a ser taxada: Grandes fortunas. Não estou falando de você que conseguiu passar num concurso mais ou menos e recebe sete mil reais por mês, ou de você que abriu um boteco na quebrada ou um quiosque na praia. Estou falando de grandes fortunas de verdade: Banqueiros e grandes empresários, pessoas que vivem de especulação financeira – Temos que parar de pensar que eles nos fazem um favor ao “dar empregos” e podem ficar “chateadinhos” com uma maior taxação! Pasmem, eles não “dão” nada. Eles precisam de pessoas que trabalhem. Eles não irão sair do país caso haja uma taxação justa, pois sabem que, no exterior, a taxação é rigorosa e que, mesmo a herança chega a pagar 60% de imposto em sua transmissão (como é o caso da França), ou 50% (como é o caso da Alemanha) – Aliás, talvez seja por esse rigor financeiro que muitos multimilionários doam tanto dinheiro para pesquisa nos países desenvolvidos – Eles sabem que não poderão deixar praticamente todo seu império para os filhos, então preferem direcionar, ainda em vida, seu dinheiro para causas que irão efetivamente auxiliar na evolução da ciência (ou vocês realmente acreditavam que as doações são apenas um gesto iluminado? Senta lá no cantinho que eu tenho que contar que papai Noel não existe, nem coelho da Páscoa). Enfim: Igrejas, iates e jatinhos, grandes fortunas e grandes heranças – Tudo isso poderia ser taxado, e não é. Sabe por qual motivo? Não é pelo bem da economia. É porque não interessa aos parlamentares da bancada do boi, da bala e da bíblia, mexer em seus próprios privilégios e nos de quem os apóia, custeia suas campanhas baseadas em ódio e “caixa 2”. É bem mais fácil fazer com que o trabalhador engula uma nova CPMF, é mais interessante tirar direitos trabalhistas e perspectiva de aposentadoria, desmontar a saúde e educação públicas, e, como um golpe final, taxar livros, dificultando a formação do pensamento crítico de nossas crianças e jovens – Afinal, quem está “lá em cima”, do presidente aos congressistas, sabe que pessoas com pensamento crítico não se deixam manipular, questionam, exigem direitos. Para eles, é bem mais fácil tocar o berrante e levar o gado, e tudo bem se a vaca for pro brejo, afinal, o deles está bem guardado em algum paraíso fiscal bem longe daqui, e enquanto muita gente de prato vazio sonha com a pizza e o suco de laranja, ou ao menos arroz e feijão (embora, na verdade, todos e todas precisamos poder comprar com nosso trabalho “comida, diversão e arte” como diria certa música) os abutres do poder se refestelam com as mais delicadas iguarias. Pois é, as taxas que nos atingem tiram uma pedra do sapato de quem nos pisoteia sem dó. E essa pedra, somos nós e nosso futuro.

Esse post faz parte do BEDA – Blog Every Day August. Participam também:

Ale HelgaClaudia Lunna GuedesVivianeDrica Mariana Gouveia ChrisObduliono – Adriana