O conto da página em branco

Me deparo com a página ainda em branco. Não é falta de inspiração. É excesso. São as vozes das personagens que trago em mim competindo entre si, querendo narrar a história perfeita. São as lembranças que meu coração guarda e que criam vida própria, desejando tornar-se texto, conto, crônica, história a se contar. Meus dedos tentam escrever e se perdem, entre lembrança e ilusão, entre a sensação da grama abaixo dos pés e o imenso céu acima de nós. Revisito momentos, sinto o cheiro do café, do mar, do perfume da tua pele junto da minha. Provo em minha imaginação o sabor dos teus lábios, tua saliva espalhada pelo meu corpo, meus beijos espalhados em ti, causando arrepios. Preciso urgente escrever, mas não consigo. Me vejo inerte diante do papel. É como se as lembranças precisassem amadurecer antes de se tornarem eternas (ou quase isso). Preciso ouvir a menina-devassa narrando ao pé do ouvido tudo o que viveu com seu Senhor – pois a ela pertencem os contos, o erotismo, a impureza que alimenta as chamas do mundo. Somente a ela cabem essas noites em claro, essas marcas na carne, essa incontida febre de paixão. A mim, cabem os poemas doces, o castelo de areia e o príncipe encantado que nada mais é que uma miragem no deserto. A mim, cabe observar o mundo e o transformar em poesia. Já ela, ela é em si mesma um poema sem regras, uma prosa envolvente, uma ardência que invade sem pedir licença. A menina é o “eu” que existe no papel e que me olha através do espelho todas as manhãs, com um brilho nos olhos e um sussurro “arrisque-se”. Algumas vezes sinto que deveria deixa-la viver um pouco mais, mesmo quando Ele está longe – Talvez fosse bom deixar a insensatez da personagem controlar um pouco a vida da mulher. A menina é capaz de proteger o próprio coração. A mulher, não. A menina entrega o que a mulher insiste em resguardar. E elas seguem seu caminho, juntas, compartilhando a atenção da poetisa que carrega ambas dentro de si, e sorri ao olhar no espelho e reconhecer alguns traços de uma e de outra em seu escrever.

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*Este post faz parte do projeto BEDA*

3 comentários sobre “O conto da página em branco

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