Um conto sobre a personagem que ela trazia na alma e não conhecia

Então ele estava ali, bem na porta do auditório. E como estava sexy com aquela camiseta de manga longa escura que contrastava com a pele clara. Olhou-o por meio segundo antes de conseguir se mover e abraçá-lo encostando seus corpos duas peças de um quebra cabeça que se encaixam perfeitamente bem. Ela tentava parecer uma lagoa tranquila, mas por dentro sentia-se como o mar em dia de tempestade. Conduziu-o até uma cadeira vazia, de onde pudesse ver o palco. De repente já não sabia se buscava segurar as mãos dele ou se mantinha as suas ocupadas – Estava ligeiramente trêmula quando se dirigiu ao palco. Era difícil se concentrar na música com aqueles olhos fixos nos olhos dela. Ela se sentia assustada diante da amplitude de seus sentimentos por ele e, ao mesmo tempo, lembrava-se de uma conversa onde ele havia dito que poderiam se relacionar como um jogo de RPG – explorariam seus desejos como se fossem personagens com hora e lugar para se encontrarem, sem que eventuais sentimentos viessem a atrapalhar a amizade que haviam construído durante anos. E naquele momento, enquanto observada aquelas mãos que a aplaudiam entre uma canção e outra, ela desejou experimentar a experiência que ele lhe sugerira – lembrou-se de uma frase de algum romance que lera tempos atrás, algo sobre uma mulher trazer dentro de si várias mulheres que não se calam – e pela primeira vez ela se arriscou a imaginar se haveria dentro dela uma mulher obscura em mistérios e desejos proibidos, ousada o suficiente para aceitar um RPG sensual. Uma pontada de tristeza a atingiu, ela desejava que ele a olhasse como mulher por inteiro, corpo, alma e coração. Desejava que ele segurasse sua mão jurando nunca mais soltar. Ela era toda entrega e sentimento. E ela não sabia como demonstrar ou lutar para que ele a visse da mesma maneira. Olhava-o ali, tão lindo e próximo e ao mesmo tempo distante e decidiu que tentaria jogar aquele jogo que ele lhe propunha – se ele estava disposto a entregar a ela uma parte única de sua vida e mostrar-lhe um lado dela própria até então desconhecido, ela tentaria.

Naquela mesma noite ele a levava para casa enquanto ela o acariciava delicadamente com as pontas dos dedos – aqueles cabelos macios pareciam chamar suas mãos e aqueles lábio pareciam desejar um beijo – ele havia lhe dito dias atrás que a castigaria caso ela tentasse roubar-lhe um outro beijo – ela decidira tentar e, tão logo estacionaram ela puxou-o para si com todo o desejo que havia guardado nas últimas semanas – ele a correspondeu com um selinho e lhe disse que cumpria a promessa e a castigaria. Colocou-a deitada sobre suas pernas e acariciou-lhe o bumbum. As mãos quentes e o cheiro da pele dele a faziam se arrepiar e perder a respiração. Ela desejava aquele castigo tanto quanto desejara o beijo roubado. Quem era aquela personagem obscura e desconhecida que morava dentro dela? Ele deu o primeiro tapa – rápido, ágil, ardido. Avisou que seriam três. Perguntou se estava tudo bem e a voz dele parecia rouca e sensual. Ela disse que sim e ele lhe bateu novamente nas nádegas – sem marcas, apenas um tapinha carinhoso e sexy. Ela se sentia ofegante e sabia que ele daria a última palmada quando menos esperasse. Ela sentiu as mãos dele passearem, aproveitando cada pedaço de seu corpo por cima do tecido antes de desferir a próxima palmada. Ele a aninhou em seus braços e ela desejou não sair mais dali- sabia que deveria construir muros e barragens, fugir daquela necessidade de estar perto dele. Ela sabia o que deveria fazer, mas não sabia como fazer. E assim deixou que seu lado obscuro e inexplorado viesse à tona. Sentia-se uma garotinha de quinze anos se descobrindo – uma sensação que não vivera na adolescência. Uma invasão insana de desejo – como um rio que a tudo invade e arrasta. Sentia-se impura, mas não necessariamente desconfortável – era constrangedor, como se gostasse de coisas que não deveria gostar – E ao mesmo tempo, gratificante, como se naquele momento tivesse sido capaz de tirar uma personagem do papel e trazê-la para a realidade. Ela não conseguia escrever isso em construções poéticas – a pequena ninfeta que criara em sua imaginação era uma adolescente rebelde e cheia de desejos ocultos – Elas teriam que conviver daquele momento em diante e ela esperava que seu outro eu a ajudasse a construir os muros que precisava para sobreviver àquela onda de paixão que a invadira. Naquela noite, antes de fechar o caderno e ir se deitar, ela percebeu que pela primeira vez havia escrito a palavra que vinha evitando: paixão. Então, havia paixão afinal? Seu coração que havia sido destroçado pelo amor anos antes ainda era capaz de ao menos ser um jardim para as flores da paixão, afeto e afinidade? Sentia que mesmo estas seriam arrancadas e destroçadas com uma recusa de seus sentimentos caso um dia ele soubesse o que se passava, mas ainda assim, decidiu seguir em frente – Ela se calaria e deixaria que sua outra face tomasse o controle quando estivessem juntos. Sorriu e olhou uma última vez aquela foto dele de perfil no Facebook antes de dormir – naquele momento já não era mais a garotinha atrevida; voltara a ser ela mesma desejando um beijo de boa noite.

 

(14-11-2017)

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