Um feitiço de Hera

 O relógio do celular marcava cinco horas. Poderia dormir pelo menos mais quarenta minutos, mas o sono não vinha. Torrou duas fatias de pão com azeite e colocou a água para ferver. Havia um caderno em cima da mesa, ao lado do pequeno vaso de Hera que ganhara na noite anterior – Olhar para o vaso fez seu coração se acelerar – era o mais próximo de uma flor que já ganhara na vida. Procurou não pensar nisso – amigos também trocam prendas eventualmente. Ainda assim sorriu e pegou o caderno, relendo o que havia escrito antes de ir dormir e, em seguida,rabiscando acima da primeira linha o título “Um conto de lagoas profundas e mergulhos”.  A água já fervia, colocou o pó de café no coador – não costumava tomar café pela manhã, mas essa manhã sentia vontade.  O líquido quente passava pelo pó no coador e derramava-se preto e odoroso pela jarra. Serviu uma xícara, sem açúcar, e se sentou novamente – já não olhava o caderno com suas páginas em branco ou a plantinha sorridente sobre a mesa – o calor e o aroma da bebida a sugavam por um túnel do tempo até a noite anterior – até aquele beijo com sabor de café e surpresa e aquela sensação estranha de ter borboletas voando pelo estômago. Em mais de três anos, era o primeiro beijo que realmente quisera dar – e isso a estava deixando confusa – qual o motivo de ter tomado tal iniciativa? Fora definitivamente bom, tão bom que a lembrança ainda se fazia presente. Respirou fundo e fechou os olhos como se pudesse realmente voltar fisicamente no tempo por alguns instantes. Ouviu um barulho – Sua cachorra latia, quebrando aquela pequena viagem matinal. Afagou a cabeça da pequenina e tomou nas mãos um copo de água para molhar o vasinho sobre a mesa – sorriu ao se lembrar o significado que o amigo dissera: União. Hera é uma planta que simboliza união. Talvez tenha sido este o motivo do beijo na noite anterior, afinal: Um feitiço da pequena plantinha para unir ainda mais duas almas que já eram amigas há anos. Afagou as folhinhas, sorriu e falou para a planta: “- Você me lançou um feitiço, pequenina, mas exagerou na dose, não acha?”. O despertador tocou, quebrando de vez a magia de seus próprios pensamentos e lembranças. Hora de começar mais um longo dia. Guardou o caderno dentro da bolsa – mais tarde escreveria sobre o amanhecer, sobre café, beijos e feitiços de Hera. Sentiu um aperto no coração, pois sabia que seus escritos seriam a única coisa que a impediria de pensar que tudo fora um sonho confuso e bom – ou quem sabe não fosse melhor pensar que tudo era apenas um sonho, já que não havia esperança de um futuro diferente do que havia sido até o início da noite anterior?

05-10-17

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2 comentários sobre “Um feitiço de Hera

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