Precisamos falar sobre censura e falsa moral

Já dizia minha mãe que “Quem fala a verdade não merece castigo”. Infelizmente, essa máxima da sabedoria popular não parece encontrar eco nas ações do governo, representadas pela impunidade de alguns e pela ação violenta da polícia contra outros.

Em Santos, no último dia 30, a Trupe Olho da Rua, formada por atores que se dedicam ao teatro de rua, teve sua apresentação interrompida pela PM de forma brusca – Um ator saiu algemado, elementos do cenário foram apreendidos, bem como o celular de uma espectadora que filmava a apresentação – e, portanto, acabou filmando também o momento da chegada da Polícia Militar.  “Blitz, o império que nunca dorme”, peça cuja apresentação foi interrompida, retrata de forma crítica e bem-humorada, a truculência da do Estado, através de seu braço denominado Polícia, contra a população, em especial contra os que se encontram em situação menos privilegiada: Negros, pobres, periféricos (em determinado momento, um dos personagens da peça pergunta “em quem eu atiro?” e recebe como resposta “no preto”) e contra os que estão lutando por seus direitos (áudios utilizados citam as manifestações de Junho de 2013 contra o aumento das passagens de ônibus). Os atores vestem-se com roupas semelhantes às utilizadas pela polícia, máscaras, saias e cassetetes e utilizam a bandeira do Estado de São Paulo, a Bandeira do Brasil e trechos do Hino Nacional. A alegação para a prisão foi “Uso indevido dos símbolos nacionais”. Caro leitor, cara leitora, antes que você possa responder que houve uma razão para tal ato, vamos pensar um pouco:                                                                                                         A polícia não se sentiu incomodada com o uso dos símbolos nacionais! Os policiais certamente interromperam a peça devido às críticas feitas de forma irreverente ao órgão – eles apenas não podiam citar isso de forma clara e direta como motivo da opressão, pois, em tese, a censura não vigora em nosso país! O que me leva a pensar dessa forma? Em 2014, quando o Brasil perdeu a copa do mundo, bandeiras foram queimadas – isso mesmo QUEIMADAS. Pergunto-lhes: Alguém foi preso por queimar um símbolo nacional? Vamos além: Quando o verão chega, é comum vermos a bandeira utilizada em sungas, em cangas, em chinelos. Não seria então um mau uso dos símbolos nacionais utilizarem nossa bandeira para encobrir corpos seminus? Não caracterizaria mau uso de nossos símbolos utilizar a bandeira em uma sunga ou pisar sobre nosso pendão quando este está estampando um chinelo? Ora, ainda não tomei conhecimento de processos contra os que fabricam e vendem estes itens! Mas o ator que utilizou a bandeira como item de um cenário que retrata a (infelizmente real) truculência do Estado foi preso sob a alegação de desrespeitar os símbolos pátrios. Uma grande infelicidade em um país “democrático”.         É necessária uma grande reflexão – para onde estamos caminhando? Queimamos bandeiras por derrotas no futebol, temos artistas reprimidos por falar a verdade através de sua arte, convivemos diariamente com notícias que retratam a intolerância religiosa, o machismo e a homofobia. Um deputado homenageia um torturador da época da ditadura e permanece livre, protegido por seus pares que não consideram um crime suas declarações.  Desde quando homenagear torturadores tornou-se ato aceitável e dizer a verdade de forma a instigar o senso crítico da população tornou-se ato criminoso?

Eu poderia terminar este texto aqui, mas não gosto de falar apenas sobre a parte meio vazia do copo! Acredito no otimismo e na importância de falar sobre o copo meio cheio, sobre as razões para acreditar! E sabe uma coisa que me leva a pensar que ainda há esperanças? Ontem, mesmo sob o risco de sofrer a repressão policial tão presente nos protestos, em vários lugares do Brasil pessoas foram às ruas contra a PEC 241, conhecida como “PEC do fim do mundo” e que congelaria por vinte longos anos o orçamento público. Em Santos, alunos da UNIFESP, que já ocupam um dos campus em protesto contra a PEC, foram às ruas, juntamente com estudantes secundaristas e trabalhadores que sabem o significado trágico da possível aprovação da emenda. Após percorrer o trajeto planejado, o ato prosseguiu na Praça da Independência e, pouco antes da dispersão os atores da Trupe Olho da Rua apresentaram um pequeno trecho do espetáculo “Blitz, o império que nunca dorme”. Foi uma alegria dupla assisti-los após o episódio que se deu em Outubro e na companhia de tantos lutadores que, inconformados com os desmandos do governo interino (golpista), ainda tomam as ruas para que sua voz seja ouvida!

Deixo aqui um trecho de “Blitz, o império que nunca dorme”. Se quiserem conhecer mais sobre a Trupe, cliquem aqui e curtam a página deles no Facebook.

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6 comentários sobre “Precisamos falar sobre censura e falsa moral

  1. mariel disse:

    Pessoalmente, não acho que a tal pec será o fim do mundo se aprovada. Primeiro porque pode ser modificada ao longo do tempo, reparando possíveis excessos. Depois, porque vejo o copo cheio sempre, um cacoete existencial. Mas entendo que vigiar é o preço da liberdade.

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    • Darlene R. Faria disse:

      O grande problema é que, tratando-se do nosso legislativo, nunca há revisão em favor da população – basta vermos que propostas que beneficiariam o erário público, como taxação das grandes fortunas, IPTU progressivo e outras aguardam no fundo das gavetas, seja em âmbito nacional, seja em âmbito municipal (caso da questão do IPTU progressivo ainda não implementado em muitas cidades), por outro lado, em uma época difícil, os salários deles permanecem intocados, acrescidos ainda de auxílio educação, auxílio moradia, cartões corporativos e etc. Ou seja: Congelam os investimentos em saúde e educação, mas mantém os benefícios próprios. Sim, é o fim do mundo, infelizmente.

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  2. Bruna disse:

    Também me parece o fim do mundo, principalmente considerando o rigoroso processo legislativo quando se trata de Proposta de Emenda Constitucional! Não é tão simples para alterar depois, principalmente em razão do que você citou Darlene, raramente há revisão em favor da população…

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