Dia do estudante: Ainda há muita luta antes que se possa comemorar.

Dia 11 de agosto comemora-se no Brasil o “Dia do Estudante”. Cada estudante traz em si um enorme acúmulo de energia, sonhos, potencial. E como o Brasil vem tratando seus estudantes? Crianças e jovens são todos os dias forçados a frequentar escolas sem infra-estrutura, onde falta merenda e os professores são pouco valorizados. Muitas vezes não há material didático disponível. Nas comunidades mais carentes as crianças mal alimentadas e sem condições mínimas de moradia e saúde, muitas vezes não conseguem sequer entender a importância da escola em suas vidas – Para algumas pessoas essas crianças e jovens simplesmente “não servem” para o mundo acadêmico – ledo e triste engano: Elas trazem em si a mesma energia e potencial de qualquer outra criança, apenas não conseguem acessar isso em seu próprio íntimo, tão duras são suas condições de vida. Bem verdade, através de muito esforço, alguns se destacam e dão a volta por cima – E quando isso acontece, surgem os defensores da chamada “meritocracia”. Aquelas pessoas que jamais moveram um dedo, mas enchem a boca para dizer “olha, tá vendo? Quando a pessoa quer ela consegue” ou “Viu? Não precisou de cotas, não precisou de privilégios, estudou”. Se fosse apenas a opinião banal, senso comum de uma população que ignora as diferentes realidades, seria chocante, porém, tolerável. O que realmente indigna é o MEC (Ministério da Educação) postar um relato de uma jovem que, para passar no vestibular de uma Universidade Federal, dormiu apenas 4 horas por dia pois conciliava escola, curso técnico e cursinho. Isso não deveria ser exemplo! Ninguém deveria precisar abrir mão de horas de sono, de saúde e lazer adequados para conseguir passar em uma faculdade. Parabenizo a jovem que relatou essa rotina. Sim, ela foi guerreira. Sim, ela merece estar no curso que desejou. Mas não, ela não deveria ser o exemplo! Principalmente: O Estado não deveria fazer dela um exemplo. Ela é a vítima do descaso que deu a volta por cima. Talvez ela não se veja assim – ainda – mas essa é a real imagem da vida de uma pessoa jovem que teve de abdicar de muito do que é inerente a sua idade para alcançar uma meta.

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É normal para você dormir 4 horas por noite durante um ano letivo inteiro? Acha justo vender a ideia de que isso é normalidade? Acha mesmo que os jovens devem passar por isso para atingir uma meta?

            E a situação só piora se analisarmos outros contextos: Além dos problemas já citados acima e de termos um Ministério da Educação que se omite, criando a falsa ideia de que a injustiça social dominante no país não deve ser levada em conta pois “quem quer consegue”, outros fantasmas se aproximam das escolas brasileiras – um deles é o chamado projeto “Escola sem partido” – Há um interesse muito grande em coibir os professores de incentivarem o pensamento crítico em suas aulas, e sabe qual o motivo? Querem jovens não contestadores, jovens que aceitem estudar em condições precárias, sem merenda, jovens que irão crescer e ser a próxima leva de mão de obra barata. Para quê discutir a realidade social em sala de aula? Para que discutir diferenças e diversidade? Isso é realmente um perigo para os grupos dominantes! Um jovem que lê, que pensa, que se arrisca a falar, a se organizar. Um jovem que vai às ruas protestar pela falta de merenda ou pelo valor do transporte público, que questiona. Um jovem que quer passe-livre. Que quer ter acesso à cultura. Um jovem que não aceita ser mais um número nas estatísticas. O programa “Escola sem partido” quer a todo custo evitar a formação de jovens e cidadãos empoderados. Alegam que professor não é educador. Alegam que existe uma suposta doutrinação marxista em sala de aula. Quem já entrou em uma escola pública periférica sabe o quão difícil seria “doutrinar” um aluno! E uma sala com 45 alunos? Impossível! Numa escola pública que segue os padrões atualmente existentes, o professor tenta a todo custo, contornando mil obstáculos, formar cidadãos pensantes, capazes de analisar seu entorno, capazes de vencer preconceitos e lutar pelos seus sonhos – e nesses sonhos incluí-se logicamente uma vaga na universidade, carreira, realização profissional. Em contrapartida, uma escola nos moldes sugeridos pelo “Escola sem partido”, seria uma máquina de moer pessoas. Um curral de formação de mão de obra não pensante. E sabe o que é mais interessante? Não é sequer uma escola sem partido, é uma escola de partido único! Qual partido? O partido dos que exploram. O partido dos que vendem todos os dias as vidas de milhões de pessoas em troca de dinheiro e poder.

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As forças políticas e intelectuais que se colocam a serviço da precarização do ensino público e da precarização do trabalhador não são neutras – São forças comprometidas com os exploradores em detrimento dos explorados. E o pior: Querem fazer crer que não estão explorando, que tudo é “necessário”.

O dia do estudante infelizmente não deve ser lembrado como um dia de comemoração, mas sim como um dia de luta: Luta pelo direito de pensar, de crescer. Luta pelo empoderamento. Luta contra a opressão imposta por uma falsa moral, por uma falsa ideia de meritocracia. E finalmente, o dia de lembrarmos com orgulho que há sim jovens dispostos a mudar, engajados em movimentos sociais, em coletivos. Jovens que ocuparam as escolas em São Paulo contra a suposta “reorganização escolar” que nada mais é que um desmonte articulado da educação pública. É dia de lembrar aos jovens que pelo Brasil a fora deixam de dormir, caminham quilômetros até a escola mais próxima que eles são vítimas de um sistema injusto e que a melhor forma de vencer seus algozes é estudar, organizar-se, debater e lutar por um amanhã melhor.

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Gosto de compartilhar músicas ao final de cada texto. Durante um tempo acreditei que não poderia mais fazer isso por utilizar a versão gratuita do wordpress, mas o André Hotter do blog do André Hotter me ensinou a voltar a colocar vídeos sem precisar comprar temas ou domínios (Obrigada André).

Enfim, fecho este post com uma canção antiga porém bastante atual quando o tema é educação. Este clipe mostra tudo que uma escola NÃO DEVE SER.

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14 comentários sobre “Dia do estudante: Ainda há muita luta antes que se possa comemorar.

    • Darlene R. Faria disse:

      Obrigada Marcela! Sim, essa é infelizmente a vontade dos poderosos! Cabe a nós promover uma mobilização em sentido contrário! Devemos procurar grupos de professores que lutam contra este projeto e apoia-los de todas as maneiras possíveis! A política é um espaço do povo que foi ocupado por pessoas inescrupulosas! Temos que ter consciência de que política não se restringe apenas a partidos e sim a um conjunto de iniciativas e ações do dia a dia (o que chamamos de micropolítica) temos que virar o jogo e ocupar nossos espaços 🙂
      Bjs

      Curtido por 1 pessoa

    • Darlene R. Faria disse:

      Hello! I also hope that things will be better for the next generation , however, I realize that only the commitment of all make it possible! Building a new direction is a task for all of us!
      Yes, actually the video says a lot! Pink Floyd is a band that did not futile songs! One of my favorite bands!
      Hugs and thanks for visiting!

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  1. Devaneadora de Ideias disse:

    Oi Darlene, excelente produção. Infelizmente essa é uma dura realidade, contudo creio que se aqui na terra a justiça mediante tantas lutas que enfrentamos falhar, a Divina jamais falhará. =)
    Abraço, lindo dia.

    Curtido por 1 pessoa

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