Resenha: O Anticristo (Friedrich Nietzsche)

          O livro “O anticristo”, como já avisa seu autor ainda no prólogo, não se destina a qualquer homem, mas apenas aos raros, àqueles que não têm medo de fazer perguntas profundas sobre si mesmo e sobre a realidade que o cerca, não a outrem, mas a si mesmos. Nietzsche não estava errado quando diz que a obra destinava-se a homens que ainda não haviam nascido, porém, em qualquer tempo, de sua publicação até a atualidade, são poucos os que se permitem questionar junto com o autor a visão de mundo cristã.
O título original do livro (em alemão Der Antichrist) pode significar “O Anticristo” ou “O anticristão”.
O filósofo segue fatos históricos e cita partes do próprio evangelho, e também do Código de Manu, de origem Brâmane (legislação do mundo Hindu, redigida entre os Séculos II a.C e II d.C), para nos mostrar a hipocrisia de quem se diz “cristão” e também o quanto o cristianismo afasta o homem de si mesmo, do que a humanidade deveria “querer ser”.
Antes de iniciar a interpretação do livro propriamente dita, é interessante salientar que o autor critica o cristianismo não só em seu modelo atual, mas sim desde suas raízes judaicas. Não se trata da “simples” questão de criticar-se uma religião, oferecendo outra “melhor”, “verdadeira” em seu lugar, mas sim de criticar-se a religião, a moral por ela imposta, com seus valores “tradicionais”, sem, no entanto, impor novos valores “prontos para uso”. A transmutação de todos os valores impõe ao ser humano a criação ou mesmo a volta aos valores individuais, se Nietzsche criticasse os valores morais cristãos nos impondo novos valores, novas regras de conduta, seria incoerente com seus próprios ideais, uma vez que não haveria transmutação de valores, apenas mudanças dogmáticas.
O anticristo procura nos mostrar a visão do cristianismo como “anti-homem”, ou “anti-humano”, como algo que domina a essência do Ser, nos tornando pessoas que não somos, seguindo valores que não temos, enfim, pessoas “antinaturais”.

(I)
O capítulo que inicia o livro nos descreve como seres mitológicos, os Hiperbóreos e procura nos descrever o caminho para encontrarmos a felicidade:
“Hiperbóreos: Povo da mitologia grega que habitava o extremo norte da Terra. Viviam num paraíso onde não existiam tristezas, nem doenças, aonde só se chegava com a ajuda dos Deuses” (Nota do Livro)
Podemos notar a importância do indivíduo, do “eu” como agente da descoberta do caminho da própria felicidade na frase: “Para além do norte, dos gelos, da morte – a nossa vida, a nossa felicidade… E quem além de nós a encontrou?”.
Nietsche não se refere a TODA a humanidade, já que no parágrafo seguinte nos mostra que o homem moderno não sabe o caminho para seu próprio bem-estar, uma vez que é entregue a valores e condições que não são humanos por natureza: A paz resultante da covardia, do perdão a tudo. E, uma vez que já não somos naturais “Éramos por natureza menos domesticáveis que quaisquer outros”, nos perdemos desse caminho que nos levaria a nosso reino Hiperbóreo. O homem, sem saber para onde direcionar a força, a coragem que lhe é inerente, torna-se triste, sem sua “atmosfera carregada de tempestade” e culmina dizendo que “não tínhamos encontrado caminho algum”.
Podemos resumir a idéia da “fórmula da felicidade” descrita pelo autor (“Um sim, um não, uma linha reta, uma meta…”) dizendo que o caminho da felicidade é a busca pela própria felicidade… Enquanto buscamos ser felizes, já o somos felizes, pois nosso espírito não-domesticado foge do conformismo, buscando a meta, no caso “Ser Feliz”.

(II)
Trata a definição do que é bom e do que é mau, do que é a felicidade e inicia a definição da caridade e do cristianismo.
O bom é o que nos desperta o desejo pelo poder. O próprio poder. O mal é qualquer coisa que nasça da fraqueza e a felicidade é a sensação de que vencemos algo (crescimento do poder).
A caridade, ao contrário do que prega o cristianismo, não consiste em ajudar aos fracos, sim em eliminá-los, uma vez que a virtude (Vir: do latim, varão) pode ser entendida como os atributos viris, a coragem, a bravura, a força, o poder, não a humildade, não o moralismo.  “Não a paz acima de tudo, mas a guerra”. Paz: Moralismo, noção cristã de se proteger os mais fracos, suportar por eles o que eles não conseguem por si.
Guerra: Buscar o poder, sem levar em consideração àqueles que não conseguem se embrenhar nessa busca.
(III, IV e V)
Não tenta descobrir o lugar do homem da escala dos seres, uma vez que o homem é um fim, algo que se está criando, aperfeiçoando. Sua intenção é questionar se o homem “desejável”, o cristão é realmente o mais valioso, o mais digno; e mostrar que, ao contrário, o homem valioso, que deve ser buscado em cada um que tenha em si força para buscar, criar esse homem, já existiu, mas em vez de admiração inspirou temor (em quem? Na massa mais fraca.) e, desse temor nasceu o cristão como imagem do “desejável’.
O homem do “tipo superior” estaria acima do homem comum, seria um “super-homem”, aparecendo isoladamente em diversas culturas, podendo, em alguns casos, ser representados por culturas inteiras, por raças…
Para o filósofo, “Desenvolver-se não significa forçosamente elevar-se, aperfeiçoar-se…” o progresso é uma idéia moderna (falsa).
Cristianismo: É antinatural, já que prega o oposto ao homem superior, saudável, ensinando o conceito de que os valores intelectuais são tentações, pecados.
O cristão defende então o que é fraco, incapaz, submisso, transformando esse tipo psicológico no tipo “adequado”.
O natural, o viril, o valoroso seria então o “inadequado”? Os que buscam seu poder, seu caminho pela felicidade seriam os que devem ser temidos? Condenados?
E os fracos? Aqueles que em tudo crêem? Seriam os corretos?Os que merecem ser defendidos? Os que merecem viver?
Quem deve desaparecer? Os cristãos, pois pregam que o homem “desejável” (isso é, o homem caridoso, submisso, fraco) deve prevalecer sobre o homem natural (viril, corajoso, contestador).

(VI)
Corrupção dos homens:
É vista desprovida do sentido moral, uma vez que os valores nos quais a humanidade vem acreditando são “valores de decadência”. A corrupção é desejar a “virtude”, á “divindade”, é submeter-se a algo que em vez de fortalecer a busca pelo poder, a enfraquece.

(VII)
Retorna à idéia dos hiperbóreos, dessa vez delimitando o seu significado: O de mostrar que o que torna um hiperbóreo, um homem desejável, filósofo é a busca da “cura” para a humanidade.
Uma vez que o cristianismo é a religião da piedade, que enfraquece o “Homem Ideal”, disseminando o sofrimento e conduzindo por vezes ao sacrifício (ex: morte de Jesus Cristo), lutando pelo bem dos fracos por natureza, a quem a vida já condenou. A piedade é hostil à vida e, apenas se torna uma virtude aos que são também hostis à vida, sendo um defeito aos olhos dos “homens superiores”, aos que amam o poder, amam o desejo pelo poder, pela liberdade, amam a busca da felicidade como meio de ser feliz.

(VIII e IX)

Trata da necessidade de definir os inimigos desse novo homem, desse homem virtuoso, valoroso, que tem em si o próprio centro, a própria razão de existir, e, quem seria esse inimigo além do teólogo?O teólogo que vê o intelecto, as honras, o conforto e as ciências abaixo de si, forças que estão abaixo do espírito, o puro espírito que nada mais é do que uma mentira. “O que um teólogo considerar como verdadeiro deve ser falso”. Teólogos que chegam ao poder trazem ao povo a vontade niilista, o nada absoluto transfigurado em “verdade”.

(X e XI)

Trata da filosofia alemã, por si só corrompida, visto que um pastor protestante é o avô da filosofia alemã. Critica Kant e seu “Procede sempre segundo uma máxima tal que possas desejar ao mesmo tempo que ela se torne universal”, uma vez que a virtude deve ser criação individual, defesa individual, necessidade pessoal. Se não for assim, se a virtude for o respeito à idéia que se faz de virtude, se a virtude for cosmopolita, ela será prejudicial à vida, portanto, uma virtude que sirva a todos como nos propões Kant é simplesmente a anti-virtude, é anti- natural.

(XII)

Conclui o pensamento sobre a decadência da filosofia, não só da filosofia alemã, mas de toda a filosofia, da filosofia como continuação do sacerdócio.
Também fala de como o padre confunde a si mesmo com os valores “sagrados” que tenta nos impingir e, vendo-se ele próprio como sagrado, sem maiores analises intelectuais, determina os conceitos de verdadeiro e falso.

(XIII, XIV e XV)

Propõe que nós somos a transmutação de todos os valores, devemos questionar os valores impostos a nós pelos sacerdotes, pela tradição, valores que não foram estudados à luz do método, mas nos foram simplesmente passados por esses sacerdotes do nada, os teólogos.
O autor busca nos retirar do patamar de seres de criação divina, de divindade em si, e colocá-lo em seu lugar: nós, seres humanos somos animais e não há negação para este fato, não somos sequer mais evoluídos que outros animais, nós temos nossas características sim, mas não somos mais que simples animais, e nos tornamos imperfeitos à medida que negamos nossos instintos. E os negamos em favor do imaginário “espírito”, teimamos na Idea de evolução como “tornar se bom, piedoso”.
Quando nos damos cota disso, fica mais fácil ver o cristianismo como imaginário, suas causas (Deus, Alma, espírito) e seus efeitos (Pecado, remissão dos pecados, salvação, castigo) tudo pura imaginação… Pensa-se então que, o cristianismo tem ainda menos valor que o mundo onírico, uma vez que os sonhos ainda nos refletem o real na maioria das vezes.
Mesmo a psicologia cristã é imaginária, é irreal, matem o homem amarrado ao cabresto da culpa, domesticado diante da noção de pecado, sempre atacado pelo remorso ante algo que fez ou pensou, o cristianismo leva a negação da realidade a tal ponto que coloca a natureza como oposta a Deus, pode-se explicar o cristianismo então como religião dos fracos, dos falhos, a quem a realidade machuca, a quem a natureza busca destruir e, por isso esses fracos tentam, a todo o custo fazer com que os fortes acreditem nessas idéias cristãs e sintam remorso do que deveriam se orgulhar, o fraco busca nivelar os homens na fraqueza, pois para ele é mais fácil derrubar um homem forte ao seu nível, do que atingir por si o nível de homem virtuoso.
(XVI, XVII e XVIII)

Um povo que crê em si possui sim um Deus, um Deus a quem se podem oferecer sacrifícios, um Deus ambíguo, com sua face boa e má, a quem os homens devem agradar, um Deus que incentiva a busca ao poder, um Deus da Guerra, não um Deus da Paz. Um Deus exclusivamente bom é um Deus castrado. Deus não é cosmopolita, cada povo tem o seu, pois para servir a vários povos, um Deus teria que ser puramente Bom por natureza, seria anti-humano então, à medida que a bondade pura não é instinto humano.
Um povo que não mais acredita em si mesmo passa a mutilar seu Deus de tudo o que busca o poder, torna-o o Deus bom, o Deus tábua da salvação, e não contente, através da moral, passa aos fortes esses valores frágeis, piedosos, esse vício chamado piedade, quando já toda a sociedade encontra-se corrompida, acontece o segundo estágio: Passa-se a demonizar o Deus do outro povo, o Deus que é diferente, o Deus que ainda busca o poder, o Deus que pode ser bom ou mal, passa a ser visto como o mal em si.
É essa versão corrupta de Deus que o cristianismo impõe a sociedade. E mesmo as raças norte européias acabaram absorvendo essa falsa concepção… Não lutaram contra ela, acabaram engolidas por ela.
(XX ao XXIII)

Aborda pontos em que o budismo é superior ao cristianismo, ressaltando que, de qualquer forma, ambas buscam o nada.
Segundo Nietzsche a superioridade budista consiste em ser realista, o cristão justifica o sofrimento através do pecado, e o aceita, ora para abrandá-lo, mas o aceita como benção. O budista é realista: Eu sofro. A partir dessa aceitação, o budista luta contra o sofrimento, ele tem a capacidade de sofrer, mas tem a capacidade de lutar contra isso. O budismo mantém-se acima da moral, apóia-se em conceitos lógicos que trazem a impessoalidade. Tudo isso causa depressão e Buda busca a cura dessa depressão através de higiene alimentar, higiene ambiental (viva junto à natureza). Considera o estado de bondade saudável, mas exclui a oração, o constrangimento a se fazer algo para atingir esse estado, o budista não luta contra pensamentos diferentes dos seus, mas faz do egoísmo dever. Essas características voltam o budismo às classes altas e aos climas sociais amenos e liberais. E isso é oposto ao cristianismo, que é a religião dos inferiores, dos fracos, de quem se considera a tal ponto inferior que vê um Deus como inacessível. Cristianismo é instinto de crueldade, é rejeição da higiene (que é considerada sensualidade) é negação do orgulho, da coragem, da liberdade, da alegria.
O Cristianismo é a pretensão de dominar o homem forte, o homem viril, deixando-o doente, ele busca valores bárbaros para isso, tenta combater o inimigo bárbaro através das próprias tradições, manipuladas de forma a parecerem cristãs, afinal, como uma religião defensora da vida dos mais fracos utilizou-se da morte dos primogênitos para se libertar? Uma religião que diz ser a religião da verdade e da vida, utilizando-se da morte? Eis uma contradição.
O Diabo cristão também é uma tábua de salvação para o fraco, se algo não deu certo, o diabo é culpado. O fraco não se diz fraco nem o incapaz assume a medida de sua incapacidade, é mais fácil culpar o diabo.
A esperança irreal do “reino de Deus” passa a ter maior valor do que a realidade, do que pequenas felicidades diárias e reais. Chega-se ao ponto de abrir-se mão delas em nome da esperança de algo metafísico, de algo por vir, de algo inexistente.
(XXIV a XXXII)

Abordará a origem do cristianismo, não como uma reação ao judaísmo, mas uma continuação, uma conseqüência dele, como a manipulação do tipo psicológico de um homem, o Galileu, o Cristo, para que este pudesse ser utilizado como Salvador da humanidade.
Na realidade, os judeus foram colocados ante o dilema: Ser ou não ser. Escolheram ser a qualquer custo, mesmo que para isso fosse necessária a manipulação e perversão de tudo: religião, moral, história, psicologia. Tudo isso a tal ponto que o cristão considera-se anti-judeu e nem nota que, historicamente ele é conseqüência do judeu.
Para os judeus e os cristãos, aspirar ao poder é adotar esses valores decadentes, valores contrários à ascensão da vida, e, através dessa imagem de decadência, chegar ao poder, a um poder corrompido, que não busca a força por si e utiliza-se dos mais fracos como rattio essendi.
Israel já teve seu Deus como Deus de poder, de prazer, de vitória, Deus de ligação com a natureza, Deus que lhes garantia a chuva, cultuavam esse Deus solenemente, agradecidos pelas vitórias obtidas, não só no campo militar, mas na agricultura, na vida em si. Aí então veio a anarquia e também os assírios. Eis que surge a figura do profeta Isaías, e, com isso, foi-se modificando a imagem de Deus, em vez de deixarem sucumbir a imagem, preferiram deturpá-la, e agora o antigo Deus de Israel é “uma coisa” condicionada ao bem eterno, não é mais a expressão de orgulho de um povo.
Após tudo isso, Israel se desfez de sua história, tornando o seu passado por si uma testemunha da religião, atribuindo a acontecimentos místicos todas as vitórias e derrotas obtidas. Tudo passou a ser então resultado da obediência e desobediência a Deus. Forjaram-se as sagradas escrituras, para que o povo se se arrepende dos “pecados” e para que se garantisse o poder ao sacerdote. Sim o sacerdote é o buscador do poder em sua forma mais corrupta: ele busca o poder antinatural, nem o poder ele busca, ele deturpa o poder na noção de conforto e nada mais. Ele não briga pelo que deseja, ele simplesmente manipula os outros para conseguir. Aí está novamente o fraco nivelando a humanidade em si própria, em vez de buscar alcançar o nível do forte, do guerreiro.
O cristianismo nega a igreja, mostra-se contrário aos valores judaicos, que são sua origem, mas nada faz para que se reviva o Deus força, pelo contrário, prega mais e mais o Deus da Salvação dos Fracos, seu próprio promotor, Cristo, é uma figura disso, o único cristão verdadeiro, o criador dessas idéias absurdas, o que condena o suicídio, mas que nada fez para evitar seu destino. Uma religião do amor, como é o cristianismo é, então e reforçando idéias anteriores, uma religião de quem teme a dor causada pela realidade.Segundo Nietzsche, a boa nova “Consiste precisamente em não existirem mais contradições: O reino de Deus pertence às crianças; a fé que aqui se revela não é uma fé adquirida por lutas; ela existe desde o princípio”.
(XXXIII)

Características do cristão?
Não faz distinções entre o compatriota e o não compatriota, não se defende de idéias contrárias as suas, o cristão acima de tudo, ama o seu próximo, sem importar-se com quem ele seja.

O livro o anticristo tem 62 capítulos, todos traçando o perfil do cristão, a origem do cristianismo, comparando-o ao hinduísmo e ao budismo, procurando mostrar à humanidade a importância de se discutir valores, de se formar valores próprios, valores que independam da tradição de uma igreja fundada por um evangelho cujo único seguidor morreu. Afinal, quem consegue, em todos os séculos, mostrar um só cristão verdadeiro? Um cristão que não responda a ofensas e insultos? No capítulo XLV Nietzsche nos apresenta exemplos contidos na Bíblia que são claramente anticristãos:
“E quando alguns não vos receberem nem vos escutarem, saindo dali sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo que no dia do Juízo, Sodoma e Gomorra serão tratadas com menos rigor que esta cidade (Marcos, VI, 11). Onde está o amor ao próximo nessa passagem???
“Mas se não perdoardes aos homens, tão pouco vosso Pai vos perdoará os vossos pecados (Mateus VI 15). Onde está o Deus de amor que tudo aceita e perdoa???
Abstenho-me de comentar aqui, capitulo por capítulo dessa obra magnífica, ficaria demasiado longo, além de repetitivo. O anticristo é uma obra de leitura altamente aconselhável a quem tem coragem de mudar sua visão e questionar-se o porquê de muitas coisas que existem, afinal, o Papa, que deveria ser o exemplo Cristão, não é imparcial, ele oprime por palavras culturas diferentes da cristã… Onde está nessa atitude o exemplo cristão de aceitar ao próximo? Muitos dos governantes mundiais são Cristãos… São? Onde? Se realmente o fossem, não haveria guerras ou discriminação. Nietzsche não busca destruir o cristianismo, e sim a hipocrisia que ronda o ser cristão. O cristianismo já não existe, Jesus, o único cristão autêntico e verdadeiro, não conseguiu convencer ninguém a agir exatamente de acordo com seus mandamentos, suas idéias foram deturpadas por seus próprios discípulos. Talvez, nos dias atuais, o homem possa quando muito se dizer neo-cristão, reescrevendo um cristianismo misturado à lei de Talião, olho por olho, dente por dente.
Ou talvez esteja na hora de resgatar antigos Deuses, resgatá-los em essência, ou criar novos deuses. Tudo, menos dizer-se cristão, pois o cristianismo nunca teve espaço na sociedade humana. Mesmo o mais derrotado dos homens não tem essa capacidade de abrir mão de tudo o que já quase não tem em nome de seu próximo, e é isso que o cristianismo nos pede.
Cada um de nós, com certeza, irá abstrair algo diferente da obra de Nietzsche, por isso, essa não é uma obra que deva ser exaustivamente explicada, mas sim lida e debatida. Para quem se propôs a tentar o questionamento de valores que o autor nos propõe, fica ainda outra dificuldade: Retiramos os valores cristãos, os valores judaicos, retiramos a moral. O que será colocado no lugar? Retirar os valores cristãos ou judaicos, retirar a moral e colocar em seu lugar outra tradição, outro hábito vazio de sentido não é progresso, é pura perda de tempo. Fica uma dúvida: o que é mais difícil, livrar-se de uma moral sem sentido, ou criar para si uma moral dotada de razão para existir?

Terminarei esse pequeno comentário da obra com o último capítulo, anexado após a primeira edição de O anticristo e provenientes dos manuscritos da obra de Ecce Homo:

Lei contra o Cristianismo
Dada no dia da Salvação, primeiro dia do ano Um
(a 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).
Guerra de morte: O vício é o cristianismo
Artigo primeiro- É vício qualquer forma de anti natureza. A mais viciosa espécie de homem é o padre: ele ensina a anti natureza. Contra o padre não temos razões, temos a casa de correção.
Artigo Segundo- Qualquer participação num ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais duros para um protestante do que para um católico, mais duros para um protestante liberal que para um puritano. Quanto mais próximo se está da ciência, maior é o crime de ser cristão. Por conseguinte, o maior dos criminosos é o filósofo
Artigo Terceiro- O lugar de maldição onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco será completamente arrasado e, sendo sobre a Terra o local sacrílego, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Aí serão criadas serpentes venenosas.
Artigo Quarto: A apologia da castidade é uma pública incitação ao antinatural. Desprezar a vida sexual enxovalhá-la com a noção de impuro, eis o verdadeiro pecado contra o Espírito Santo da Vida.
Artigo Quinto- Comer à mesa com um padre exclui-vos; fazendo excomungam-se da justa sociedade. O padre é nosso tchandala- será encarcerado, privado de alimentos, expulso para um lugar como o deserto.
Artigo Sexto- Dar-se-á à história “santa” o nome que merece, isto é, história maldita; serão usadas as palavras “Deus”, “Salvador”, “Redentor”, “Santo”, para injuriar, para com elas marcar os criminosos.
Artigo Sétimo- O resto nasce aqui.

Nietzsche- O Anticristo.

Observação: Basilisco é um monstro em forma de serpente, cuja lenda diz que, ouvir seu silvo ou vê-lo daria a morte a quem isso sucedesse, habitante dos subterrâneos era rei dos animais venenosos e dele fugiam as víboras, supostamente, o basilisco nascia de um ovo sem gema posto por um galo e chocado no estrume por um sapo.
Tchandala: Intocável, pária da sociedade Hindu.

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6 comentários sobre “Resenha: O Anticristo (Friedrich Nietzsche)

  1. Lunna Guedes disse:

    Não sou muito fã de Nietzsche, confesso. Mas li seus livros… o que me incomoda nele e que geralmente ele segue caminhos dúbios em sua escrita. Nesse, por exemplo, Cristo é pouco citado… o li ainda no tempo da faculdade, duas vezes, porque não é um livro para leitura única. Mas não sei se voltarei a ele… Sr

    Bacio

    Curtido por 1 pessoa

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