100 Fábulas Fabulosas – Millôr Fernandes

Fábulas são pequenas histórias dotadas de conteúdo moral. Não são (em sua grande maioria) privilegiadas pelo realismo. Geralmente acontecem “no tempo em que os animais falavam”, em lugares que “hoje já não mais existem”, em tempos que os historiadores jamais ousaram retratar. Neste contexto, Millôr Fernandes dá seu toque de humor às fábulas e às lições de moral, muitas vezes politicamente incorretas. 100 fábulas fabulosas é um livro para quem deseja distrair-se, rir e refletir sobre conceitos e valores de uma forma despojada e irreverente. É um livro para ler, reler, dar de presente; podem-se contar algumas de suas histórias aos amigos, como quase piadas morais, numa mesa de bar ou num almoço em família. Enfim, um livro que mais que um livro é um amigo.

Vou postar aqui algumas das que eu mais gostei, mas lembrem-se: Há 100 fábulas no livro, então, não deixem de ler a obra completa por ter lido o resumo de algumas das fábulas por aqui, ok?

Lição de moral: Cuidado quando a direita e a esquerda estão de acordo.

O que se pensar quando duas pessoas ou duas partes que sabemos adeptas de ideias completamente opostas, estão de acordo? Tomar cuidado, observar bem a situação, pois alguma vantagem certamente elas devem estar buscando. É isso que Millor pretende mostrar na fábula “Mudanças imutáveis… à maneira dos chineses” que narra o sofrimento de um homem muito rico que sofre por não conseguir dormir devido a dois ferreiros, seus vizinhos da casa esquerda e direita. Decidido a resolver o problema, oferece mil ienes (unidade monetária no Japão) a cada um para que se mudem dali. Eles aceitam e assim o fazem: O da direita vai para a esquerda e o da esquerda muda-se para a direita. Trazendo para a realidade: Se o tal homem rico da fábula tivesse procurado um advogado, poderia ter incluído no contrato que por algum tempo os dois vizinhos teriam que se mudar para uma distância pré-determinada de sua casa, como não o fez e não percebeu que foi fácil demais convence-los a se mudar, acabou tendo um prejuízo de dois mil ienes. Portanto, a segunda lição de moral desta história: Observe com cuidado todas as cláusulas de um contrato.

Lição de moral: Quando o pecado é grande não importa uma feijoada a mais ou a menos.

            Todos cometem erros durante a vida. Durante a vida conjugal, tais erros por menor que sejam, podem ter um significado maior, daí o porquê de tentar esconde-los om máximo possível. Na fábula “Amor com amor se paga”, Millôr conta a história de um casal, cujo homem à beira da morte confessa a mulher que errou, tendo sido mesmo infiel algumas vezes e que, a cada erro, guardava num saquinho uma moeda fazendo-a prometer que só abriria o tal saquinho quando ele já estivesse morto. Ele se recupera e, tempos depois ela caí doente, e, chamando o marido confessa-lhe que também cometeu muitos erros, guardando, para cada erro, um grão de feijão em uma lata, sendo que faltariam duas xícaras da lata, utilizadas numa feijoada na semana anterior. Esta fábula é de um humor irônico, revelando que todos cometem erros e carregam culpas, mesmo aquela pessoa “perfeita”, vez ou outra comete deslizes.

            Lição de Moral: É preciso ser reconhecida por Deus. Não basta ser reconhecida ao cirurgião plástico.

            Nesta pequena fábula, uma mulher muito bonita e virtuosa recebe a visita de Deus, que lhe promete cem anos de vida por suas inúmeras virtudes. Grata, ela dedica-se cada vez mais às práticas humanistas, mas, vaidosa como qualquer mulher, a cada período submete-se a uma cirurgia plástica, pois deseja manter-se bela. Aos setenta anos, morre atropelada e pede contas a Deus, que lhe havia prometido vida até os cem anos e ele responde que “não a reconheceu”.

            Esta história não é estranha aos que estão habituados a receber piadinhas via e-mail, pois, com certas variações ela é bem popular na internet. Também é engraçado reparar no título: “As ligações (cirúrgicas) perigosas”, que remetem o leitor a um título clássico “As ligações perigosas” (LACOSTLE), cujo tema é semelhante ao do conto: a vaidade.

            Lição de moral: Quem está na merda não filosofa. Submoral: Da discussão nasce a luz. E da luz?

            Nesta fábula, intitulada “os perigos da filosofia”, quatro jovens e um professor escondem-se em um quarto quase completamente escuro. São subversivos procurados pelas autoridades. Sem alternativa que não ficar ali, escondidos, começam a filosofar sobre “qual a maneira mais apropriada de encher o quarto completamente” sem ter, no entanto, que abandona-lo. Um sugere palha, outro areia, outro, água, mas todos estes meios possuíam divergências com a pergunta: a palha não encheria por completo o quarto. A areia não permitia que eles continuassem no quarto. A água a todos afogaria. Até que o último estudante resolve o problema: Acende a luz, que enche completamente o quarto. Enquanto o professor começa a falar sobre a importância da luz, a polícia entra e fuzila a todos.

            Há um tom de humor claramente irônico neste pequeno conto. Os fugitivos estão em uma situação difícil ( ou seja, “na merda” como bem diz a moral) e, para passar o tempo, começam a filosofar, focando em um objetivo abstrato. Após tão “produtiva” discussão, nasce a luz, não no sentido filosófico da palavra, ou seja, não a luz como uma nova ideia destinada a resolver grandes problemas, mas sim a luz, aquela que a maioria das pessoas pode acionar em suas casas através do interruptor. E da luz? O que haveria de nascer? Neste caso, nasce a tragédia: Todos morrem fuzilados.

            Lição de moral: Toda repressão tem sua cota de permissividade.

            Outra fábula com certo humor: Um carro vem passando pela estrada, quando é parado por um guarda que, empolgado parabeniza o motorista por ter sido o milésimo a passar pela estrada “do Progresso e da Liberdade”  e, por isso acaba de ganhar um milhão de cruzeiros. Ao perguntar ao motorista o que pretende fazer com o dinheiro, ele responde “comprar uma carteira de motorista”. Tentando corrigir a burrada feita pelo marido, a esposa responde que “o guarda não deve prestar atenção a estas bobagens, uma vez que o homem está bêbado”, tentando corrigir ainda os deslizes dos dois, replica que “se ele estivesse bêbado, não teria conseguido roubar o carro”. Diante disto, o guarda, rindo, elogia lhes o bom humor e manda que sigam viagem.  Resta, ao final da fábula uma dúvida: e o tal prêmio?

Lição de moral: “A superproteção num tá cum nada”

            Conto marcado pelo humor e pela malicia, narra a lenda de Prometeu e Pandora de um modo diferente. Usualmente, conta-se que Prometeu, por roubar o fogo dos céus e dar aos homens foi condenado a viver durante trinta mil anos amarrado ao Cáucaso com um abutre a comer-lhe o fígado. Nesta fábula, no entanto, antes deste castigo, Zeus impôs outro a Prometeu e a humanidade: Deu-lhes uma mulher (que naquele tempo, segundo Millor, só existia na terra dos deuses) de nome Pandora, que, além de inúmeras qualidades possuía uma “caixinha negra de forma triangular que Zeus havia lhe dado recomendando que não abrisse para ninguém”, os homens, instaram-na a abrir a tal caixinha (nas palavras do autor – virgindade) e, quando ela o fez, vencida pela insistência e curiosidade (o que haveria lá dentro?), Pandora abriu a caixinha e de lá saíram todos os males do mundo (luxúria, inveja, medo, cheque sem fundo, impontualidade) e povoaram a terra para sempre. Pandora fechou as pernas, onde tinha colocado a caixinha, retendo a esperança por isso, até hoje, “a Esperança só dá no escuro e os homens vivem atrás dela aos tropeções, mas não desistem”.

Lição de moral: “Só um burro tenta ficar com a parte do leão”

            Nesta fábula nota-se a presença de um elemento característico da maioria das fábulas: Animais falantes, com ações quase humanas. Aqui, um rato, um leão e um burro saem a caçar. Ao voltarem, o leão chama o rato a beber água com ele e pede ao burro que reparta a caça; o burro reparte em três partes iguais, o que faz o leão, indignado, mata-lo. Fica então o rato incumbido de repartir a caça, o que o faz diligentemente, deixando um enorme monte para o leão e reservando para ele apenas um pequeno ratinho. O leão, encantado, lhe elogia a inteligência, pedindo-lhe explicações de como chegou a uma partilha tão justa. O ratinho explica que, chegou a tal partilha considerando o tamanho e a força do leão e a posição que ocupa na floresta, concluindo que suas necessidades são bem maiores que a dele. Arremata dizendo que aprendeu tudo naquele instante, com o burro morto.

            Lição de moral: “A imortalidade é discutível, a gatunagem não”

            Certo imperador ganhara um frasco com um vinho que supostamente lhe daria a imortalidade, no entanto, na hora da refeição, o frasco onde havia o tal vinho estava vazio. Após breves instantes, descobriu-se que um eunuco era o culpado e, furioso, o imperador mandou executa-lo, dando-lhe um minuto apenas para sua defesa. O eunuco ponderou que, mata-lo não seria digno da sabedoria do rei, pois, se o tal vinho fosse mesmo um elixir da imortalidade, ele não morreria. Se não fosse, morreria inocente, tendo bebido um vinho qualquer. Diante desta lógica, o imperador determinou que o eunuco seria castigado com 150 chibatadas por dia até o fim da vida. Ou seja, se bebeu o vinho da imortalidade, receberia 150 chibatadas diárias  eternamente, se não, as receberia até morrer por ter bebido um vinho que não lhe pertencia.

            Lição de moral: “A rã o que é da rã e ao boi o que é do boi” ou “ A tecnologia agrícola exige especialização”.

            Conta uma antiga fábula que uma rã, com inveja do tamanho do boi, tanto respirou e procurou inchar que acabou explodindo. Nesta versão, a rã consegue chegar ao tamanho do boi e, ao ver isso, o fazendeiro a coloca para puxar o arado em um terreno cheio de imperfeições, onde o boi jamais conseguiu arar por  não saber saltar.

            Trazendo para o dia a dia: Não adianta sentir inveja dos outros, todos tem algo apertando o calo e só cada um pode dizer o que incomoda. Se a rã não tivesse inveja do boi, não teria sido obrigada a fazer-lhe o trabalho.

            Lição de moral: “Todo gato verde precisa ser ratificado”.

            Outra fábula curta e muito engraçada. Um grupo de ratos encontra um gato pintado de verde com um logotipo vegetariano pendurado no pescoço. Alegremente, aproximam-se, pensando que o gato não oferece perigo. Ledo engano, meia dúzia de ratos é devorada pelo felino, fazendo com que o rato mais velho conclua que “o vegetarianismo aumenta a voracidade dos ratos”.

            Lição de moral: “Onde só há fumaça não se deve chamar o Corpo de Bombeiros”

            Narra a discussão entre dois gaúchos, um churrasqueiro e um que gostava de presunto defumado. A discussão deu-se porque o gaúcho que gosta de presunto defumado utilizou a fumaça do outro para defumar seu presunto. O churrasqueiro queria exigir que o outro pagasse pela fumaça utilizada. Como a discussão não chegava a um fim, os dois chamaram um magistrado para que resolvesse o impasse. O douto julgador ordenou que o gaúcho do presunto jogasse ao chão uma pataca (dinheiro); recolheu o dinheiro do chão e disse que o som da moeda era suficiente para pagar ao outro a fumaça utilizada e saiu murmurando “honorários”.  Nem sempre é necessária e vantajosa a intervenção de outra pessoa para resolver problemas. Muitas vezes o valor que se paga por tal intervenção é superior ao que poderia ser pago se houvesse acordo.

            Estes breves resumos são mais que suficientes para despertar no leitor o desejo de conhecer o restante da obra, por isso, tomo a liberdade de encerrar por aqui esta resenha, deixando um “gostinho de quero mais” no amigo que me lê.

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