Capítulo 19

O dia estava muito quente, por isso a sorveteria La Bamba estava lotada.  Melissa deixou-se ficar na calçada, esperando Gabi, para irem a algum outro lugar, mais sossegado. Viu-a chegar. Havia parado o carro no outro lado da pista. Estava muito diferente da Gabi que havia conhecido alguns anos antes, mas nem por isso deixava de fazer seu coração bater mais forte.
Gabi passou ao lado de Melissa e nem a notou, entrou na sorveteria. Melissa entrou logo em seguida, viu-a em pé, olhando para todos os lados, tentando descobrir entre tanta gente quem poderia ter mandado aquele bilhete.
-Gabi…
Gabi fica paralisada. Não pode ser. Tantas pessoas poderiam tê-la encontrado… Isso só poderia ser uma brincadeira do destino. Justamente Melissa.
-Então Gabi. Tantos anos se passaram. Você não vai me dizer nada?
-Melissa?
Melissa não resiste e segura também à outra mão de Gabi, esquecendo-se de que está em um local público e lotado.
-Meu amor… Finalmente eu a reencontrei.
-Amor?Não Melissa, você nunca foi capaz de amar, sempre disse que o amor era ilusão, perda de tempo.
-Gabi… Eu dizia isso até ir morar em São Paulo,até ficar distante de você…até te perder,e,só quando a perdi,soube o valor que há em um amor verdadeiro.
-Você me perdeu, Melissa, você me machucou muito, desdenhou o amor mais puro… Agora, não adianta voltar atrás, pedir outra chance… Esse corpo que você olha pode pertencer a qualquer pessoa, exceto a você.
Gabi estava em prantos. Várias pessoas voltavam-se para observá-las..
-Gabi, por favor, se acalma… Vamos conversar vamos nos dar uma nova chance, começar de onde paramos.
-Nunca.
-Você não me ama mais?
Lágrimas…
-Não, Melissa, eu não te amo mais.
Sem pensar, Melissa agarra Gabi e a beija, um beijo quente, cheio de desejo e saudade. Gabi não resiste e entrega seu coração a esse beijo, ao menos por alguns segundos. Em seguida, empurra Melissa, lhe dando um tapa na face, as pessoas ao redor ficam chocadas com a cena. Gabi, entre lágrimas, sai correndo, não espera o farol e tenta atravessar a Avenida, um carro em alta velocidade vem em sua direção, Melissa, que saíra correndo atrás dela nem pensa, apenas a empurra, jogando-a longe e sendo atropelada em seu lugar.
O motorista foge, sem prestar socorro…
Várias pessoas correm para ver o que aconteceu, Melissa está desacordada. Por alguns instantes, recupera a consciência e consegue dizer apenas: “Gabi…o que sinto por você é para sempre. Se acontecer alguma coisa ruim comigo…estarei sempre com você”, então,desmaia novamente.
Na sala de espera do pronto socorro, Gabi chora. Melissa arriscara sua vida para lhe salvar, e, talvez, aquela declaração de amor tenha sido suas últimas palavras. Seu estado é muito grave, precisou ser operada às pressas, apresentou hemorragia interna e também traumatismo craniano, além de uma fratura na perna.
A equipe médica havia entregado a ela os pertences de Melissa. Havia passado pelo menos 4 horas, e, nenhuma notícia. Só então Gabi decide procurar no celular de Melissa um telefone qualquer, para o qual possa ligar. Encontra o telefone de Diana. Após duas ou três tentativas, Diana atende. Fica muito chateada ao saber do acidente, mas não pode lhe fornecer nenhuma informação sobre como encontrar a família de Melissa, nem amigos. Faz pelo menos dois anos que elas não se vêem, e, nas poucas vezes que se encontraram, não fizeram amigos comuns ou falaram de suas famílias.
Gabi encontra o telefone de Valeska. Liga. Valeska está em casa, assistindo um filme. Não tem vontade de atender ao telefone, mas após tantas ligações seguidas, acaba atendendo. Ao saber da notícia, vai imediatamente ao pronto socorro.
Faz o possível para acalmar Gabi. O médico entra na sala de espera, diz que, só após 24 horas poderá dizer se Melissa corre ou não algum risco, até então, sua situação é instável e não há prognóstico possível.
Foram as piores 24 horas na vida de Gabi, que se sente culpada pelo que aconteceu. Seu orgulho e seu medo de sofrer a impediram de aceitar Melissa de volta em sua vida, e, agora,tudo o que mais queria ,era saber que Melissa ficaria bem, viveria. Talvez, se ela não tivesse sido tão dura, elas estariam agora juntas, aproveitando todo o tempo que perderam.
Valeska decide não avisar nada à família de Melissa, seus pais já tem uma idade um pouco avançada, não era justo preocupá-los. Passam-se semanas, Melissa está em coma induzido, é transferida para um quarto particular, onde pode receber as visitas de Valeska e Gabi, que se identificam como as únicas pessoas que a conhecem.

Chega o dia da reunião, Valeska, sempre organizada, não havia terminado os relatórios sobre seus alunos… Passa a noite em claro.
Está nervosa. Algo lhe diz que encontrará sua amada nessa reunião.
As mães de todas as crianças estão presentes, exceto a mãe de Anne Camille, que não pôde comparecer, devido ao trabalho, por isso, pediu que o marido fosse à reunião em seu lugar. A cada bimestre era convocada uma reunião, e, desde o início do ano letivo,a mãe de Anne Camille não havia comparecido à escola.
Christopher, apesar de saber toda a história de Valeska e Marjorie, nem percebe que, a professora de sua filha é o grande amor de sua esposa. Acha,assim como Marjorie, que o nome é apenas uma simples coincidência.

Dois meses após o acidente, Melissa recebe alta do hospital, mas não deve voltar a trabalhar, tendo que ficar em repouso e fazer fisioterapia. Gabi a leva para sua casa, para poder cuidar dela como é necessário.
Estão em Setembro, no colégio, há outra reunião. Novamente, Marjorie não pôde ir conhecer a professora favorita de Anne.

Anne tem uma personalidade ao mesmo tempo dócil e agitada. Faz amizades muito facilmente, mas cansa-se delas mais facilmente ainda… Uma das poucas pessoas que conseguem prender sua atenção é Valeska.
Em Novembro comemoram o aniversário do colégio, os alunos fazem pequenas apresentações de teatro,dança,recitam poemas, todos participam de uma maneira ou de outra. Como não podia deixar de acontecer, Anne e suas amigas apresentam uma pequena coreografia, onde, como sempre, ela se destacava mais do que todas as suas colegas, haviam pedido que fosse deixado no palco um vaso, com uma rosa vermelha. A música tem um ritmo forte, que a faz dançar com a rapidez e a leveza de quem a qualquer momento levantará os pés do chão e irá dançar nas nuvens. Sua roupa azul-celeste destaca a pele ligeiramente morena e os traços orientais delicados. Quase no final da música, abaixa-se suavemente e pega a rosa do vaso. Dançando,desce do palco,mistura-se à multidão e entrega a rosa à Luana,sua melhor amiga.Volta para o palco,termina a coreografia e recebe merecidos aplausos.
Como sempre, Marjorie não compareceu à festa, Diana não pôde assistir, pois se mudou para São Paulo e Christopher desta vez também não pôde prestigiar a filha.
Valeska tira muitas fotos de Anne, fica imaginando, se fosse sua filha, e de Marjorie, sempre teriam tempo de ir juntas aplaudi-la. Sente que Anne é mais solitária do que deveria ser. Apesar de estar sempre cercada de amigos, não tem a inocência da idade, a confiança que as meninas têm umas nas outras. Conversa apenas o necessário, e somente quando está com vontade de fazê-lo.

Em Dezembro, Melissa já está recuperada, mas decide retornar ao trabalho apenas após as férias. Ela e Gabi estão, aos poucos, recuperando os anos que perderam. Decidem casar-se, Melissa consegue se transferir para a comarca de São Vicente, onde passam a morar juntas.
Enfim, um final feliz?
Não, o amor não tem início nem final. O amor é um círculo infinito. Em cada final, um início, em cada início, um final. O amor atravessa todas as distâncias, vai além de todas as vidas, todo o tempo e o espaço. Quantas vidas Melissa e Gabi não viveram juntas antes? Desde que seus olhos se cruzaram pela primeira vez, suas almas sabiam que se pertenciam, por toda a eternidade. viveram, morreram,atravessaram séculos,novamente se cruzaram. Novamente,a vida colocou-lhes obstáculos. Viveram juntas? Morreram de amor? Quem sabe? Apenas, pode-se saber que, amaram-se. Quantas vezes repetiu-se esse ciclo, até renascerem Melissa e Gabi? Quantos anos até se reencontrarem nessa vida? Até Melissa perceber finalmente que amava Gabi? Quanto sofrimento? Lágrimas. Não, esse não é simplesmente o final feliz da história de Melissa e Gabi, é apenas o triunfo do amor, não é o final de uma história e sim o início de outra. O início de uma vida feliz que um dia, novamente terminará,e,no futuro,recomeçará. Elas não serão mais Melissa e Gabi. Terão outros nomes, outras personalidades… Talvez renasçam em outro país, com certeza em outra época… Mas serão sempre duas almas que se amam… Repetirão eternamente esse ciclo de amor.
Valeska acompanha a felicidade da amiga… Muitas vezes, imagina um reencontro com Marjorie… Será que ainda está casada?Ama o marido?Tem filhos?Muitas vezes elas planejaram ter um bebê. Marjorie sempre dizia que iria colocá-lo em aulas de Karatê. Mesmo que fosse uma menina. Valeska, apaixonada pelo Balé, dizia que, mesmo se tivessem um garoto, ele iria freqüentar as aulas de dança. Planejaram tanto… E para quê?
Valeska cedeu a casa na fazenda para que Melissa e Gabi pudessem ter uma lua de mel. Melissa ainda estava fazendo fisioterapia uma vez a cada quinze dias, mas seus movimentos já estavam quase normais. Seus pais ficaram chocados ao vê-la com Gabi, achavam que, após tantos anos, esse amor já não existisse mais, e, agora, não havia nada que pudessem fazer para separá-las.
Valeska passou uma noite de ano-novo solitária, mas, todos os últimos anos haviam sido assim, mesmo cercada por seus amigos, aquela saudade, aquela dor, insistiam em machucá-la, maltratá-la.

No dia 1° de janeiro, Anne Camille completou doze primaveras. Tentou ligar para Valeska, convidando-a para sua festa, mas infelizmente, o celular da professora estava sempre fora de área.

Caderno de notas da Valeska

 

“Cores do tempo”

“Olho para trás e posso ver as cores do tempo que se passou…

O verde broto da infância…

Delicado, inocente e cheio de esperanças…

As alegres cores do florescer da juventude…

Sensuais, nem por isso menos doces…

Atraentes aventuras,

Profundas emoções…

Agora, vivo o outono,

Cores pálidas…

De tudo o que senti,

Os sentimentos intensos da juventude vão aos poucos caindo ao chão,

Como folhas secas ao vento…

Mas, o Amor que sinto por você sobrevive…

Agarrado em minha alma como o broto agarra-se a um ramo em dia de vendaval…

Passam-se os anos,

E o Amor continua a ser um broto verde que trás esperança ao coração…

Uma flor que enfeita a vida…

Ilumina e a cada dia, me mostra o verdadeiro motivo de estar aqui,

De recomeçar,

Renascer juntamente com o Sol…

Renascer com o luar…

Muitos anos ainda se passaram

Até que eu atinja o inverno da vida,

E, mesmo assim,

Quando as cores obscuras do inverno dominarem meu espírito,

E,

Todas as folhas já estiverem caídas ao chão,

Mesmo assim,

O Amor permanecerá em meu coração,

Flor que desabrocha e nunca seca

Seus brotos ainda serão verdejantes…

Fortes,

Invencíveis e imortais brotos de Amor

Cheios de esperanças… colorindo minha vida,

Flor que desabrocha e nunca seca

E dá forças e alegria ao meu coração,

Coração que ainda estará esperando por você…”

Valeska foi transferida para São Paulo. Voltou a morar com a família. Era estranho estar de volta. Foi difícil acostumar-se novamente à sua casa, sua cidade.Anne ficou muito triste com a partida de sua professora predileta, tudo foi tão repentino que nem houve tempo de pedir-lhe o novo telefone ou o e-mail.

Muitas vezes, Valeska passava os finais de semana em São Vicente, com Melissa e Gabi, em alguns feriados ia para a fazenda…O tempo foi passando…

Dois anos após se casarem, Melissa e Gabi adotaram uma menina, agora eram uma família completa. Valeska tentava, mas não conseguia tirar de seu coração a imagem de Marjorie, por isso, ainda estava sozinha.

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