Capítulo 14

Como todos os fins de ano, Valeska e Melissa foram para o sítio com a família. Um dia a tarde, Melissa encontrou Gabi, que havia ido visitar Valeska. Ambas ficaram muito embaraçadas por se reencontrarem após tudo o que havia acontecido. Melissa acabou voltando para casa – no coração um misto de alegria, tristeza, saudade e arrependimento… Não conseguiu manter-se calma, quando chegou estava aos prantos… Por sorte seus pais não estavam… Não conseguia ficar em casa, foi até a beira do riacho e deixou-se ficar por lá… Acabou adormecendo… A noite já começava a cair quando os pais de Melissa voltaram da cidade e passaram na casa de Valeska para buscá-la, Como não estava mais lá, pensaram que iriam encontrá-la em casa… Também não acharam… Procuraram em cada recanto do sítio, e,quando já estavam desesperados,pediram ajuda aos pais de Valeska. Horas depois, acharam-na ainda adormecida na beira do rio… A noite estava quente, o que a livrou de apanhar um resfriado, mas mesmo assim, ela estava ligeiramente febril… Sussurrava baixinho o nome Gabi… Seus pais não conseguiam entender, depois de tanto tempo, e ela ainda se lembrava daquela aventura de criança? Para fazê-la esquecer Gabi, haviam aberto mão da companhia da única filha, para que ela fosse morar na cidade, conhecer rapazes interessantes, casar… E, num momento febril,era o nome Gabi que vinha-lhe aos lábios…. Ficou assim por mais ou menos uma semana… Seus pais levaram-na ao médico, que após examiná-la cuidadosamente não conseguiu descobrir-lhe nenhuma enfermidade. Estava chegando o natal, e nada de Melissa demonstrar melhoras. Chorava, chamava por Gabi. Valeska velava a cama da amiga. Estava começando a conhecer a face sensível de Melissa, a face dos sentimentos puros que estivera oculta sob um manto de malícia e luxúria. Na noite de Natal, Melissa conseguiu levantar-se da cama por algumas horas, participar da ceia com a família. Os pais, vendo tanto sofrimento, perguntaram se ela gostaria de voltar para casa. Ela sorriu por instantes, mas logo perguntou se poderia namorar Gabi, caso voltasse a morar com eles. Imediatamente, seus pais mandaram-na para o quarto, de castigo até o final das férias, e após isso, ela voltaria a morar em São Paulo, longe dessa menina que havia lhe tirado toda a noção dos bons costumes. Nem a notícia de que Melissa havia sido aprovada na FUVEST fez os pais abrandarem o castigo.

Marjorie preparava com todo amor a ceia de sua nova família. Era o primeiro Natal que ia passar casada com Christopher, e não queria que nada saísse errado. Ela enfeitou a mesa com flores brancas, uma toalha rendada, bem delicada. Espalhou velas no ambiente, foi um jantar pequeno, apenas ela, Christopher, Diana e Martha. Todos se mostraram encantados. Após anos, podia finalmente dizer que estava feliz. Não era exatamente felicidade o que sentia, apenas não tinha vontade de chorar, não havia esquecido a dor, mas também já não a sentia a cada segundo do dia. Era como se seu coração estivesse anestesiado. Marjorie havia decidido continuar trabalhando no Bingo Sete Mares, mas iria começar a tão sonhada faculdade – Desistiu de fazer educação física, preferiu continuar na área de informática:  Estudava no período noturno,após sair do Bingo. Ao chegar em casa,o jantar estava na mesa,Christopher invariavelmente a esperava, nunca jantava antes dela chegar da aula. Ele era um marido atencioso e dedicado, o sonho de qualquer mulher. Muitas vezes ela se perguntava qual o seu direito de estar ao lado dele se não conseguia nem ao menos cumprir seu papel de mulher, quanto mais amá-lo.

Valeska estava no seu terceiro ano de Faculdade… O tempo passava rápido. Mais um ano, e ela já teria a Licenciatura, poderia enfim dar aulas. Melissa iniciava a faculdade. O novo ritmo a fez esquecer-se um pouco de seus sentimentos, era como se houvesse se isolado Quem a olhasse agora, já não veria mais aquela garotinha que um dia nadava nas águas de uma cachoeira e imaginava ser uma sedutora e fatal ninfa. Seu olhar já não tinha mais aquele brilho nascente de um desejo animal. Estava mais ameno, sentia-se a mudança de seus sentimentos.Seu corpo também havia transformado-se bastante: Havia ganhado um pouco mais de musculatura, pois fazia academia duas vezes por semana e apenas os cabelos continuavam os mesmos: uma cascata negra que caia-lhe pelas costas, chegando até os quadris.

Caderno de Notas de Valeska: (poema escrito aos quinze anos de idade, pensando em você, Marjorie) “O Amor é um sentimento forte A paixão nunca deixa de ser uma Ilusão O Amor que sinto por você É maior que a razão Resiste até a morte A paixão que tenho por você Não me deixa ser triste Ela me leva a um mundo encantado Onde a palavra tristeza não existe”

Naquela manhã, Marjorie acordou com o interfone tocando… Estranhou não ver Christopher em casa. O que haveria feito o marido sair num domingo pela manhã? Ao atender, foi avisada que havia um rapaz na portaria, para entregar-lhe uma cesta de café da manhã. Estava com preguiça de ir até lá buscar seu presente, e as regras do prédio não permitiam entregadores circulando sozinhos pelo condomínio. Onde estaria Christopher? Pediu para que o porteiro recebesse a cesta e subisse para entregar em seu apartamento. Quando abriu, viu um cartão: “Hoje faz um ano que sou o homem mais feliz do universo, pois tenho você ao meu lado, minha rainha, dona de todos os meus sonhos e sentimentos. Amo-Te… Christopher”

Como ela havia se esquecido? Não preparou nada para celebrar seu aniversário de casamento. O que faria?Era domingo, Christopher sempre passava o dia em casa, às vezes Diana também… Desembrulhou cuidadosamente seu café da manhã e arrumou com capricho na mesa… Christopher chegou em seguida, havia ido buscar na casa de um amigo o segundo presente, um lindo filhote de poodle, fazia tempo que Marjorie demonstrava vontade de ter um animal em casa. Era uma fêmea, que foi carinhosamente chamada Marpher(uma mistura dos nomes Marjorie e Christopher). Após esse café da manhã romântico, enquanto Christopher tomava um banho, Marjorie ligou para Diana. Explicou-lhe o esquecimento do aniversário de casamento e pediu-lhe que fosse até lá, como se as duas já houvessem combinado de sair juntas naquele dia. Diana e Marjorie foram ao shopping. Andaram, buscando idéias para um presente original e carinhoso… Diana sugeriu que ela comprasse uma roupa íntima nova, provocante e fizessem uma noite especial….Marjorie não tinha como explicar à ela que nunca havia feito amor com Christopher. Começava a achar que fora uma péssima idéia aquele passeio no shopping… Entrou numa loja, comprou um baby doll novo,branco e inapropriado para uma noite picante. Decidiu comprar também uma caixa de bombons e um CD de música New Age, que Christopher com certeza iria adorar. Passou no supermercado, comprou ingredientes para fazer um jantar especial. Ao chegarem a casa, já quase de noite, Diana pediu que Christopher a levasse para casa. Moravam em bairros bem distantes, o que daria tempo para Marjorie preparar o jantar, enfeitar toda a sala com velas e incenso, tomar um banho e vestir-se… Como adorava usar roupas brancas, escolheu um vestidinho branco, longo e bem soltinho do corpo… Deixou os cabelos livres, sem usar nada para prendê-los… De repente tinha vontade de fazer-se bela para Christopher… O jantar foi maravilhoso… Ele adorou o CD, que ficaram ouvindo deitados no sofá enquanto devoravam os bombons… O contato do corpo de Christopher fazia Marjorie estremecer… Despertava-lhe desejos intensos, que há muito tempo não se permitia sentir… Ela tinha consciência que seu coração pertencia à Valeska… Mas seu lado fêmea começava a dominar-lhe, querendo entregar-se… Isso a deixava profundamente constrangida. De repente, sem conseguir pensar ou evitar, beijou Christopher. Não foi um simples selinho, como o que deram na festa de casamento, mas sim um beijo quente e cheio de desejo. Foi deitar-se em seguida, não conseguiu sequer dizer boa noite ao marido. No dia seguinte, ambos fizeram de conta que nada havia acontecido. Era mais conveniente, pois não queriam destruir a relação de intensa amizade que havia entre eles.

Caderno de notas de Valeska:

“Amo-Te, Te quero  Coração bate forte Espero-te Noite e dia Dia e noite Tão tristes horas Tão lentas Queria arrancar do peito meu coração Queria arrancar de meu corpo o espírito… Queria libertá-lo, Para que livre pudesse voar ao teu encontro… E pudesse segurar suas mãos… E conversar com teu coração… Dizer a ele que você é tudo para mim… Que se um dia você não existir mais, Meu coração não mais achará sentido em existir… Então, após fazer brotar em seu coração a semente do Amor, Que antes de você nascer os deuses plantaram, Meu espírito voltaria ao meu corpo… E meu coração voltaria ao meu peito… Continuaria batendo forte… Continuaria te esperando… Mas saberia que a semente de seu Amor por mim estaria germinando… E, lentamente cresceria… Quando então, seus olhos se cruzassem com os meus… Essa pequena roseira que é o Amor floresceria… Os Espinhos perfurariam teu coração, Assim como perfuram o meu… Teu coração perceberia que apenas o meu coração Seria capaz de curá-lo…

E então,

Estaríamos unidas,

Para juntas atravessarmos a Eternidade…”

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