Capítulo 10

As primeiras semanas de Melissa em São Paulo foram tranqüilas, ela já estava com dezesseis anos, e os pais dela haviam dito aos pais de Valeska para deixarem-na fazer tudo que as meninas normais dessa idade fazem e apenas tomarem determinados cuidados em relação a possíveis ligações de Melissa com garotas…. Eles a estavam mandando para a capital para afastá-la da homossexualidade. Ela começou a freqüentar o mesmo colégio que Valeska havia freqüentado e fez amizades com irmãos mais novos dos amigos de Valeska e Marjorie. Ao contrário do que pensavam os pais de Valeska, a presença de Melissa só serviu para deixá-la ainda mais isolada: Dedicava-se o dia todo aos estudos, tornou-se rapidamente a primeira aluna na Faculdade. Melissa também se mostrava uma aluna aplicada,. Mas não se isolava, recebia muitos amigos e amigas em casa, saia para dançar com os amigos, arranjou um namorado,terminou,arranjou outro, terminou também… Depois, arranjou uma namorada, que apresentou para Valeska. Valeska contou aos pais sobre a namorada de Melissa, eles disseram que não havia nenhum problema, explicaram então para Valeska que Melissa havia vindo com eles para ficar afastada de influências homossexuais, mas como eles não achavam certo interferir dessa maneira na vida pessoal dela, trouxeram-na para dar-lhe a liberdade de escolher seus caminhos. Valeska não agüentou ouvir aquilo de seus pais e começou a chorar como uma criança.Contou então a eles tudo que havia acontecido entre ela e Marjorie e sobre o que Melissa havia feito às duas. Eles não podiam acreditar no que estavam ouvindo. Valeska pediu que eles mandassem Melissa de volta para o sítio, mas seus pais recusaram-se, Melissa havia errado, mas para eles Valeska havia errado mais ainda ao não resistir às tentações e trair Marjorie. E, principalmente, errara ao trair a confiança de Melissa com a ligação anônima que fizera aos pais dela, sabendo de todo o preconceito existente naquela pequena cidade do interior. E, ainda estava errando,traindo novamente a confiança da amiga que havia apresentado-lhe a namorada e pedido segredo. Melissa moraria ali com eles quanto tempo quisesse e seus pais permitissem. Marjorie mantinha muito pouco contato com os antigos amigos, mas o suficiente para saber que Melissa estava em São Paulo, morando com Valeska. Apesar de todos lhe dizerem que Valeska estava muito abatida e que ela deveria dar uma nova chance ao amor das duas, Marjorie não se convencia, principalmente após saber da mudança de Melissa para São Paulo… Tudo bem, contaram-lhe que Melissa estava namorando, mas, mesmo assim, não conseguia mais confiar, acreditar que poderia dar certo. Marjorie não conseguiu bolsa para a faculdade e matriculou-se em um curso técnico, na área de Informática, na Escola Técnica Escolástica Rosa. O curso era gratuito, e ela havia feito o vestibulinho já pensando na possível possibilidade de não conseguir uma bolsa de estudos para a faculdade. Os dias passam rápido, mas em nenhum momento deixam de ferir Valeska e Marjorie, como um punhal que penetra lenta e cruelmente suas almas. Valeska faz da esperança de um dia voltar a ter Marjorie em seus braços sua razão de viver. Marjorie vive por que não teria coragem de morrer e matar junto com ela o Amor que ainda sente por Valeska. As férias se aproximam e Melissa começa a ficar muito tensa, sabe que irá com a família de Valeska para o sítio, sabe que irá rever seus pais, mais não sabe como será recebida pela família, teme mais a possibilidade de voltar a morar com eles do que continuar sendo rejeitada e vivendo em São Paulo. Gabi, que continuava se correspondendo com Valeska, confessa que ainda não esqueceu Melissa, mas sabe que jamais voltará a ficar com ela, depois de saber tudo o que fez no passado. Conta que está namorando uma amiga do colégio, que os pais de ambas nem imaginam o que acontece entre elas. Valeska fica feliz pela amiga, lembra-se de quando tinha dezesseis anos e namorava escondido… Agora que os pais já sabem, cobram o tempo todo, dizem que ela precisa de uma nova namorada, que ela deve entender que Marjorie faz parte do seu passado, e que o tempo não voltará atrás… Valeska sempre sonhou em ser aceita pela família, mas nesses momentos, preferia que eles a odiassem e não falassem com ela nada além do mínimo para uma convivência pacífica. Caderno de notas de Valeska Carta para aquela que jamais esquecerei… “E lá se vai mais um dia… Perco as contas de quantos assim já vivi… As lágrimas caem na vidraça, e a chuva brota de meus olhos tristes, quase não me deixam ver a paisagem, quase não me deixam ver a tua fotografia. Ah, a paisagem lá fora… Triste reflexo de minha alma… Folhas que caem nesse outono chuvoso. Esperando a longa solidão do inverno, a natureza demonstra triste beleza. Passará este inverno, esta tristeza. Então flores se abrirão a saudar alegres criaturas que irão se amar… Já não correm mais lágrimas pela vidraça… Mas, oh, aqui dentro, que se passa? Meus olhos tristes carregam ainda mais marcas da grande solidão… Eles estão a te esperar, e com eles meu coração. Coração magoado, valente coração partido… Ciente que a cada inverno sofrido não seguir-se-à alegre primavera, festeiros pássaros, alegres flores. Chora coração, chora as lágrimas pelo tempo em que poderia tê-la em seus braços e não a teve. Chora pela vida que passa lá fora… Chora o canto dos pássaros que gostaria de ouvir ao lado da tua amada; Sofre a cada palavra dos doces versos de amor que com uma flor gostaria de entregar-lhe a cada manhã; Chora ao lembrar-se que a vida é fugaz E que ela não volta atrás… Que do tempo que passa da primavera da tua vida ficarão apenas as lembranças, dos beijos de amor que não demos, do calor dos abraços que não sentimos, das noites em que não nos amamos da vida que não vivemos. Quantos outonos tristes atravessarei solitária? Quantas primaveras verei passar? Chegará o outono dos meus anos, e eu estarei aqui, lágrimas dos meus olhos a cair; chuva na janela a chorar. Em minhas mãos aquela fotografia tua, já desbotada, mas sempre a lembrar a esperança que tive de ser feliz ao teu lado… Ah!Esperança! Rósea flor regada pelas lágrimas do meu coração. Esse mesmo coração que hoje, cansado de tudo, ainda tem força para sussurrar bem de leve o teu nome, Marjorie…”  

Finalmente as férias chegam. Melissa passa o mês todo no sítio, com seus pais. Valeska, como sempre, mantém-se distante. Levou vários livros da faculdade para estudar, assim teria em que se ocupar. Melissa também levou alguns livros do colégio. Seus pais ficaram muito felizes em vê-la, mas decidiram que seria melhor ela continuar morando na capital, se os pais de Valeska concordassem. Em Santos, as férias de Marjorie também não têm grandes novidades. Ela não viaja para ver os pais, pois não poderia se ausentar do trabalho, mas não se importa com isso, sabe que se fosse, seria muito difícil deixá-los de novo. Ela decide deixar a loja em que trabalha, mas antes de pedir demissão, começa a procurar um novo emprego.

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