Capitulo 5 – Carmilla (II)

           

Emanuela estava ansiosa por encontrar a jovem com quem havia marcado um encontro numa sala de bate-papo. Conversaram durante semanas a fio, sempre no mesmo horário noturno. Carmilla parecia uma jovem simpática e culta, dizia ter 22 anos e estudar Música na FAP. Debatia com tranqüilidade qualquer assunto que surgisse. Após algum tempo de bate-papo, o inevitável aconteceu: marcaram uma data para se encontrar. Sentia-se como uma adolescente apaixonada, acordou cedo, fez o cabelo, as unhas… Demorou horas escolhendo a roupa que usaria, acabou decidindo-se por um tubinho preto e sandália de salto alto, que, na hora de sair foram trocados às pressas por uma saia de cetim, também preta, pela altura dos joelhos, uma meia calça preta, um coturninho de salto e uma frente única (preta). Haviam marcado o encontro numa casa noturna GLS super badalada e Emanuela já estava preocupada em saber como se reconheceriam.

            Luzes piscavam por todos os lados… A fumaça do gelo seco ajudava a embaçar ainda mais a visão… Uma linda garota, aparentando ter vinte e poucos anos, estava sentada no balcão, bebericava um Martini com uma pedra de gelo. Os olhos voltados para a entrada. Vestia-se de negro, como quase todos por ali. Quando viu Emanuela chegar, levantou-se imediatamente. Sua vontade era fazer sexo com ela e depois matá-la. Mas não queria assim, tudo em uma noite… Conquistaria seu coração primeiro. Talvez a transformasse em Vampira, sem escolha como havia acontecido com ela, e depois a faria servir-lhe durante longos 113 anos… Caminhou em direção à jovem, que olhava para todos os lados :

            -Me procurando?

            Carmilla era mais bonita do que Emanuela havia imaginado, o que a deixou momentaneamente sem ação, mas como era desinibida, contornou logo a surpresa, arrastando Carmilla para a pista de dança, onde as batidas as conduziram a uma dança sensual, os corpos cada vez mais próximos, como que se provocando… Pela primeira vez, Emanuela estava conseguindo se divertir sem sentir a presença de Bianca a seguindo. Isto lhe dava uma sensação de liberdade e também lhe causava temor, onde estaria aquela que já havia se tornado sua sombra? Não deveria pensar nisso agora, estava quase nos braços da garota mais linda que já havia conhecido. Como ela era perfeita, até seu nome tinha uma musicalidade especial – Carmilla – diferente, assim como sua dona, perfeito. Doce. Havia uma tensão no ar, uma química quase insuportável. Mesmo assim, Carmilla não fazia nada para avançar os limites, sequer havia tentado beijá-la, talvez esperasse uma iniciativa de Emanuela, algo que não demorou a acontecer. Ela, porém não se entregou. Sugeriu irem para um local mais reservado. Carmilla levou Emanuela até seu carro, onde colocou uma música francesa, de alguns anos atrás, porém uma de suas preferidas: Voyage Voyage. Ficaram apenas conversando por algumas horas, enquanto rodavam pela cidade e observavam as pessoas… Pouco antes das duas da manhã, Carmilla deixou Emanuela na porta de casa, despedindo-se dela com um delicado beijo “de trave”, isso é, quase um selinho. Marcaram de se encontrar no próximo final de semana, em um bar muito freqüentado por roqueiros góticos no centro de São Paulo…

           Emanuela trabalhava no escritório de uma firma que mantinha turnos durante a madrugada. Naquele dia, estava especialmente bem arrumada, aproveitara o tempo um pouco frio e colocara uma bata vermelha, de meia-manga e decote ousado, uma calça jeans justa e uma botinha com um salto pequeno. Tinha uma sala só sua, um computador ao canto, próximo à janela. Não havia ninguém por ali, algo comum àquela hora da noite. Tudo deserto, como ela gostava, pois assim podia trabalhar tranquilamente. Não se passaram nem cinco minutos, e ela notou que alguém a observava pelas costas, tão próximo que podia sentir-lhe a respiração. Sentiu uma mão deslizar pelas suas costas, acariciando lhe a nuca e os cabelos. Quem seria? Surpreendeu-se ao ver Carmilla – seus olhos só faltavam devorá-la. Sem dizer uma palavra, deslizou as mãos por dentro de seu decote, provocando-lhe arrepios, levantou-a e a conduziu até uma escada que levava a um porão que não era utilizado, mas que mesmo assim era mantido limpo. Beijaram-se furiosamente, Carmilla abriu o zíper da calça de Emanuela e começou a tocá-la enquanto a beijava. Nunca Emanuela havia conhecido um prazer igual. Apesar de suas muitas experiências, jamais alguém a havia tocado com tamanha audácia e isso a excitava.

            -O que vocês pensam que estão fazendo?

            Lucius, o gerente da madrugada havia notado a porta do porão semi-aberta e decidira averiguar, encontrando-as naquela situação constrangedora e atrapalhando os planos de Carmilla, que pretendia ali mesmo dar o Beijo da Imortalidade em Emanuela. Foram colocadas para fora, Carmilla poderia ter matado Lucius naquele momento, mas não queria que Emanuela soubesse o que ela era. Levou-a até um pequeno bar, onde conversaram por algumas horas e Carmilla conseguiu, não sem usar seus poderes, evitar que Emanuela lhe perguntasse como a havia encontrado.

Novamente a despedida fora muito discreta, apenas um selinho rápido, que nem de leve aproximava-se dos beijos quentes de algumas horas atrás. O encontro, porém estava confirmado, iriam ver-se no final de semana e, no que dependesse de Carmilla, iriam ver-se bem antes…

             Já era quase hora de ir para casa, daqui alguns minutos o gerente do dia chegaria. Preguiçosamente, Lucius abandonou o jogo com o qual se entretinha em seu próprio computador e foi verificar se estava tudo em ordem com as máquinas, se dirigiu a primeira das três salas… Ligou a verificação antivírus dos treze computadores daquela sala e saiu em seguida, dirigindo-se à segunda sala, onde já havia colocado o programa de verificação para funcionar uma hora antes. Após resolver alguns problemas técnicos de rotina, desligou os sete computadores. Restava apenas a terceira, o escritório de Emanuela, cuja máquina também já havia sido verificada. Surpreendeu-se ao ver ali uma jovem de cabelos negros. Aproximou-se, colocando a mão sobre o ombro da jovem. Para sua surpresa ela segurou-lhe a mão, começando a acariciá-lo, enquanto ele por sua vez também acariciava-lhe ora a mão, a nuca, os ombros, o peito… Ela levantou-se e o beijou de uma maneira tão envolvente que lhe parecia sobrenatural, ele a encostou na parede e começou a tirar-lhe toda a roupa, deixando-a nua. Fizeram sexo ali mesmo, em pé, como animais. Vestiram-se. Lucius pediu delicadamente que Carmilla se retirasse. Assim ela o fez.

             Chovia não uma chuva forte, mas o suficiente para deixar uma pessoa completamente molhada em poucos minutos. Carmilla caminhava pelas ruas desertas, o local onde estava não era muito movimentado àquela hora. Usava calça jeans de cintura baixa, tênis e uma camisa branca sem sutiã, já transparente devido à chuva. Um farol indicava que algum carro estava próximo. Ela ficou parada junto ao meio-fio. Lucius parou imediatamente o carro ao reconhecer a jovem que o havia levado à loucura poucas horas antes. Desceu do carro e sem palavras começou a beijá-la, arrancando-lhe a camisa molhada e tentando secar-lhe os seios com a boca, como que bebendo toda a água que a chuva havia derramado sobre aquele corpo branco e suave. Entraram no veículo e novamente fizeram sexo de maneira selvagem. Ele a levou até o prédio onde morava num pequeno apartamento quarto-e-sala. Foram direto para o quarto.

Ele se assustou ao notar que os olhos de sua amante ficarem vermelhos, mas nem sentiu quando ela o mordeu.

            Carmilla não sabia, mas outra vampira a acompanhava naquela noite. Tratava-se de Danielle, que há muito tempo esperava por uma chance de tomar Lucius para si mas não sabia se conseguiria. Quando viu outra vampira aproximar-se do homem amado ficou por ali para tentar protegê-lo, mas tudo o que conseguiu foi dar-lhe o Beijo da Eternidade.

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