Capítulo 5 – Carmilla (I)

BIANCA

“Uma amizade verdadeira pode durar um segundo ou uma eternidade, um amor verdadeiro jamais acabará e, da mesma forma, uma inimizade jamais morrerá.”

  

             A lua brilhava redonda e prateada sob o véu negro da noite. O vento uivava como se quisesse arrancar as estrelas do firmamento. Nada disso parece incomodar a bela mulher que se veste no amplo quarto daquela mansão abandonada. Trata-se de um casarão colonial no Sul dos Estados Unidos. O local fora habitado por uma família rica, dona de muitas terras e escravos. Carmilla era filha ilegítima do senhor daquelas terras com uma de suas escravas, Letícia. Foi criada junto aos filhos de seu senhor. No início da guerra civil norte-americana, todos os homens partiram para o campo de batalha, deixando na propriedade as mulheres. Carmilla tinha então dezessete anos e havia se apaixonado por Bárbara, sobrinha órfã do senhor daquela casa e que fora morar com o tio aos 12 anos. Um sentimento correspondido que gerou uma paixão ardente. Encontravam-se às escondidas todas as noites e faziam amor quase até os primeiros raios da manhã.

            Uma noite Carmilla estava ao piano quando sentiu uma brisa fria adentrar a sala. Sentiu uma mão deslizar de leve sobre seus ombros, descendo até seu colo e acariciando lhe os seios fartos. Sua respiração ofegava, aos poucos ia perdendo a noção do perigo… Se alguém as visse ali, naquela situação… Essa Bárbara era mesmo completamente louca. Aquelas mãos percorriam com seu corpo, passeavam entre os cabelos… Ela já não estava mais conseguindo concentrar-se na peça que executava ao piano… Sentiu a amada puxá-la de encontro a si, fazendo-a levantar-se, mas não a deixando virar-se para corresponder aos carinhos… Como sempre, torturava-a, fazendo-a sentir falta de ar, o coração disparado, um calor entre as pernas, sentia a própria umidade… Tinha vontade de livrar-se logo daquelas roupas, de ser tocada… Mas aquela noite, algo estava diferente, aquelas mãos… Aquela força ao acariciar seu corpo… Sentiu os pés saírem do chão e, quando deu por si, estava sentada sobre o piano, as mãos daquela desconhecida (só então se dera conta de que não era Bárbara) já estavam por baixo das saias de seu vestido… Ela não conseguia fazer nada para evitar, gemia baixinho… Queria ser possuída ali mesmo, ao som dos seus gemidos, da respiração ofegante, do vento gelado que entrava pela janela, das teclas do piano… A última coisa que viu antes que Bianca a mordesse foi Bárbara entrar correndo na sala e gritar, ao vê-la nos braços da desconhecida…

            Durante 113 anos, Carmilla teve que servir à Bianca, faziam sexo todas as noites sempre de maneira selvagem, agressiva… Às vezes Carmilla ia visitar sua prima Bárbara, que pensava que a amada havia fugido com outra mulher, pois Bianca alterara sua memória para que não se lembrasse da cena… Bárbara havia chorado muito e decidido seguir a vida religiosa, retirando-se para um convento, e, justamente por isso, Carmilla nunca mais a viu… A casa onde viviam foi incendiada por escravos rebeldes três dias após Bárbara partir para o convento e todos os seus habitantes pereceram nesse incêndio. Quando transformou Carmilla, Bianca já sabia que, mais dia, menos dia, algo de ruim aconteceria ali, e pretendia libertá-la para que ela pudesse transformar Bárbara, deixando-as livres para amarem-se pela eternidade, Carmilla, porém não acreditou nas boas intenções de Bianca e passou a cultivar por ela um grande rancor, jurando um dia vingar-se.

             Enquanto se vestia, Carmilla ia lembrando-se de tudo que já lhe ocorrera desde a sua transformação… Passava suas noites seduzindo os homens, deixando-os loucos de desejo… Gostava de sentir aqueles olhares famintos sobre seu corpo, sabia que era bela e fazia-se desejada… Mantinha a mesma aparência que tinha quando mortal, uma garota de dezessete anos, de cabelos negros e longos, seios fartos, pernas grossas, corpo elegante, olhos azuis e pele branca, apenas atualizava seus trajes de acordo com a moda. Após o incêndio, a casa foi reconstruída por herdeiros de seus senhores, estes, como todos os outros que se aproximavam do local sofreran morte misteriosa. Aos poucos, a velha casa foi ficando esquecida. As ordens de desapropriação e todos os documentos oficiais que autorizavam o leilão do local, devido à falta do pagamento dos impostos, desapareciam dos arquivos misteriosamente. O único som que se podia ouvir ao passar em frente à velha mansão, era o toque suave do piano. Carmilla passara a habitar aquela casa.

          Carmilla  jurou para si mesma que nenhuma mulher jamais colocaria as mãos sobre seu corpo – apenas duas pessoas poderiam ser exceções a este juramento: Emanuelle, ou sua amada Bárbara, se um dia se reencontrassem. Porém, ela estava longe de ser uma Vampira isolada esperando pelo seu grande amor. Tornou-se uma criatura cheia de luxúria, noite após noite saía às ruas, em busca de homens a procura de aventura. Dominou a arte do canto, embora cantasse apenas para acompanhar o piano. Aprendeu os movimentos sinuosos e sensuais da Dança do Ventre… Lembrou-se de Mohamed, um jovem que ela conhecera num bar nos anos 60… Ele odiava suas raízes culturais. Fazia algumas semanas que ela o observava à distância. Um dia, ela decidiu revelar-se… Sentou no balcão perto de onde ele estava com os amigos e pediu um vinho. Era inverno e ela usava uma capa longa negra. Ele chegou perto dela como quem não quer nada e ofereceu-lhe uma bebida, ela aceitou. Logo estavam beijando-se furiosamente. Ele sugeriu que fossem a um local mais tranquilo. Levou-a a um pequeno motel, próximo a estrada. Ele deitou-se na cama, enquanto ela colocava algo nos toca-discos. Para surpresa do rapaz, uma música oriental. Dançou para ele de maneira tão encantadora quanto sensual. Retirou de dentro da bolsa uma bela serpente, deixando-a passear por todo seu corpo. Enquanto dançava, aos poucos foi despindo o jovem que a olhava embasbacado. Ela deixou que ele a despisse também. Deitou-se na cama, a serpente passeava entre os dois. Dois corpos suados, ansiosos por entregar-se ao prazer. Ela deixou que ele a penetrasse e a levasse ao orgasmo. Então, ela o mordeu, foi a primeira e última vez que Mohamed tocou um corpo feminino. Dias depois, o corpo foi encontrado em meio a um matagal. A polícia atribuiu a morte a um latrocínio. O jovem Mohamed fora um jantar delicioso.

 

 

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