Capítulo 3: O Diário de Emanuela

BIANCA

“Os anos que passam não podem apagar os momentos mais doces. Não podem apagar os sentimentos… Nós podemos mudar. Os séculos deixam marcas em nossas almas, muitas vezes marcas doloridas que nos fazem irreconhecíveis, mas não adianta fugir sempre seremos apenas nós mesmos… Mortais ou Imortais.”

São Paulo, 02 de Junho de 1996, Domingo.
 
Nunca escrevi um diário antes. Sempre achei pura perda de tempo. Uma coisa completamente sem sentido, um passatempo tolo de garotinhas apaixonadas, porém, de um mês para cá algo tocou meu coração profundamente: todas as manhãs, encontro na porta do meu apartamento uma rosa vermelha e um poema, ou uma carta. Anônimos… E aos poucos, sinto que estou me apaixonando pelo autor de tão belos versos. Até hoje, pensei que fosse apaixonada por minha melhor amiga, Mary, embora me recuse a aceitar e assumir a ideia de ser homossexual, porém esses poemas começam a me fazer descobrir um novo (ou talvez um verdadeiro) amor. Tenho guardado todos eles numa pequena caixa, junto com as rosas e muitas vezes me pego pensando quando seu autor irá se revelar.

São Paulo, 04 de Junho, Terça-Feira

Ontem me decidi a descobrir o autor dos poemas, permaneci acordada na sala, mas de alguma maneira não me lembro de como, o sono me venceu e hoje pela manhã me vi deitada na cama. Não me lembro de ter-me vindo deitar. Enfim, acho que estava exausta demais para lembrar. Tenho vontade de tentar novamente esta noite, mas amanhã terei prova no colégio e preciso estar descansada se quiser me sair bem.

São Paulo, 05 de Junho de 1996, Quarta-Feira.

Sonhei que Mary havia vindo me ver durante a noite, que me acariciava e me beijava de leve, mas ao mesmo tempo não era ela, e sim outra jovem que não conheço. Acordei com uma marca vermelha de batom no peito, bem no local onde sonhei que ganhava um beijo. Como essa marca foi parar ali?

São Paulo, 13 de Junho de 1996, Quinta-Feira.

 Hoje entreguei a Mary a caixinha onde guardo os poemas e as rosas, não quero eles caiam em mãos erradas numa das faxinas que minha mãe faz periodicamente. E sei que nas mãos de Mary eles estarão em segurança… Não tenho escrito por pura falta de tempo e também por certa preguiça. Até hoje não consegui ficar uma noite sem dormir, para tentar descobrir o autor dos poemas. Todas as vezes que tento, o sono vence a curiosidade. Quando será que ele revelar-se-á?

São Paulo, 16 de Junho de 1996.

 Estou encantada. Descobri que minha amiga Mary é uma escritora talentosa. Ela me entregou hoje um disquete onde escreveu uma história sobre vampiros, usando os poemas que eu entreguei a ela (ela diz que ela os escreveu inspirada por uma vampira que diz ser minha alma gêmea). O mais impressionante é que ela sabe até mesmo detalhes como a mancha de batom que surgiu em meu peito naquela noite…

São Paulo, 17 de Junho de 1996, Domingo.

Mary é muito engraçada. Agora resolveu que está apaixonada por M. um dos personagens do conto que escreveu. Pior: quer me convencer que tudo isso é real…

São Paulo, 23 de Junho de 1996, Domingo./24 de Junho
Hoje de madrugada recebi um presente, estava na casa de Mary eram quase meia-noite e eu já estava impaciente para ir dormir, mas ela insistiu que eu deveria ficar acordada, que ela tinha um presente de Bianca (a vampira que ela diz ter escrito os poemas) para mim. Ela me entregou um embrulho, um pano branco que continha um objeto pesado, muito pesado. Tratava-se de um punhal, antigo, e que se tingiu de vermelho quando toquei nele. Não sei como ela fez isso, deve ter usado algum Kit de “mágica” daqueles vendido nessas lojas de brinquedos. Depois ela guardou o punhal embaixo do colchão e fomos dormir. Pela manhã, ele já não estava mais lá, e, no meu braço surgiu uma cicatriz. Ou melhor, não surgiu, tenho certeza de que já estava lá e eu não me lembro como adquiri. Não existem vampiros, nem bruxas nem nada semelhante…

São Vicente, 30 de Junho de 1996, Domingo.
    
Estou em São Vicente, na casa de praia dos pais de Mary. Chegamos hoje e tivemos uma faxina pesada para fazer, mas agora já está tudo em ordem. Amanhã é só começar a curtir a praia, o mar. Mary só pensa na noite em que encontrará M., quando ela vai entender que tudo isso é apenas imaginação?
 
São Vicente, 03 de Julho de 1996, Quinta-feira

Ontem Bianca apareceu para mim, no quarto, convidou-me a seguir com ela pela Eternidade. Há alguns dias eu não acreditava em nada que não pudesse ser comprovado pela ciência e agora estou aqui, amedrontada por uma vampira que diz me amar. Amanhã Mary irá juntar-se para sempre a M., e eu? Que farei? Partirei com Bianca? Terei esta coragem? Ficarei neste mundo? As dúvidas assolam minha mente…

São Vicente, 05 de Julho de 1996, Sábado.
    
 Acordei aos primeiros raios do sol. Mal podia esperar para contar à Mary o sonho que tivera. Aquelas histórias sobre Vampiros estavam mexendo com minha imaginação. Sem fazer barulho, para não acordá-la levantei-me e fui ao banheiro. Lavei o rosto. Voltei para o quarto e encontrei a cama de Mary vazia. Seria possível que já fosse assim tão tarde e ela já estivesse acordada? Esperei que, a qualquer momento Mary invadisse o quarto e pulasse sobre minha cama, chamando-me de preguiçosa. Nada. A cada instante, vinha-me a memória as imagens daquele sonho. Mary estava linda, naquele vestido longo e negro. O vento frio mexendo-lhe os cabelos. Sentamo-nos em um canto do emissário deserto. Mary levantou-se e ordenou-me que ficasse ali, e não a seguisse, houvesse o que houvesse. Ela seguia cada vez mais adiante. Ia ao encontro de um belo homem de capa negra. Sem nenhuma palavra, beijaram-se. Atônita, vi quando o homem começou a tocá-la de uma maneira mais íntima, quis gritar, mais algo me impediu. Ao meu lado, estava sentada uma mulher deslumbrante, usava um longo vestido branco e, nas mãos trazia um punhal. Ficamos ali, caladas, como que esperando o desenrolar de um filme. Após alguns segundos de carícias ousadas, vi o homem deitar Mary nas rochas. Após este momento, as cenas passaram a se confundir… Senti Bianca segurar minhas mãos e perguntar: Vem comigo? Lembro-me apenas de ter recusado e, em seguida, desmaiado, para acordar em minha cama. vi Bianca remexer na caixa que estava sobre a cama de Mary, e que deveria ficar comigo, e retirar de lá o diário, depois dormi de novo e acordei pela manhã, com muita vontade de contar a Mary tudo o que havia sonhado… Mas Mary não apareceu…

O desaparecimento de Mary foi um choque para todos… Amigos e família procuravam-na desesperadamente, mas não houve pistas que pudessem esclarecer onde estaria a garota. Emanuela não se atrevia a dizer o que sabia, mesmo porque seria inútil, nada mais poderia ser feito. Sentia muitas saudades da amiga. Às vezes, sentia a presença de Bianca a espioná-la, mas nunca mais a viu ou falou com ela. Apenas podia senti-la e isso a amedrontava.

Os anos foram se passando lentamente. Emanuela tornou-se uma bela mulher, sedutora e fogosa, tudo em seu corpo buscava o prazer, sem culpa e sem compromisso. Não mostrava mais a delicadeza e a pureza de sua antepassada, mesmo assim, Bianca ainda continuava apaixonada por ela. Passava noites e noites seguindo-a por todos os lugares, shows, bares, danceterias; doía-lhe ver a mulher amada entregar-se assim a homens e mulheres, ao mesmo tempo em que se orgulhava em saber que, no fundo, aquela criatura sedutora, fogosa e um tanto sarcástica e cruel, mesmo sem querer, lhe pertencia.

Quem observasse calma e friamente Emanuela, poderia notar que seu olhar guardava um segredo. Algo que ela jamais havia revelado a ninguém: no fundo de seus olhos tão seguros e sedutores brilhava o medo. Podia sentir Bianca a acompanhando a cada passo, sabia que bastaria chamá-la e ela estaria ali, pronta para levá-la para viver a Eternidade. Estava com 26 anos, dez anos já haviam se passado desde aquela noite. Mas aqueles olhos não saiam de sua mente. O que fazer? Por vezes, sentia-se tentada a seguir Bianca, pedir que a transformasse numa Vampira, numa Senhora da Noite, uma alma eterna. Se ao menos Mary pudesse vir visitá-la, contar-lhe sobre sua nova vida.

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