O diário de Mary (XIII)

BIANCA

São Paulo, 19 de Junho de 1996, Quarta-Feira. Emanuela ficou em choque quando lhe disse que sabia de quem ela gostava. Disse que estou louca, que ela jamais teve tendências homossexuais… Foi uma conversa difícil, mas pude sentir que Bianca tem razão e várias dúvidas penetraram aquele coração. Mais tarde, em casa, fiquei pensando sobre tudo o que tem acontecido, sinto que tudo isto é uma caminhada sem volta, pois a partir do momento em que Bianca e Emanuela se encontrarem, ela deixará para sempre este mundo, unindo-se a seu Amor, é certo, mas extinguindo para sempre os rastros de seu sangue sobre este planeta… Ou não, afinal, quantos outros ramos familiares dela deve haver espalhados por aí, quem garante que duas pessoas desconhecidas não tenham ao menos um ancestral em comum perdido através dos séculos? Bianca apareceu esta madrugada, para mais uma conversa: -Olá Mary! -Bianca! Que prazer vê-la! -Precisamos conversar… -Fiz algo errado? Estou tentando convencer Emanuela a teu respeito, mas não é nada simples… -Calma, não é sobre isso. Você está indo muito bem… O assunto é outro. -Qual? -M. III. -O que houve com ele? -Nada, ele continua vivendo sua eternidade, alimentando-se, enfim, está tudo certo com ele. Mas temos um pequeno problema. -Problema? -Sim. M.III nunca trouxe ninguém para acompanhá-lo em sua eternidade, conversei com ele hoje sobre este assunto, e ele não pretende fazê-lo. Mas o que me incomoda é, se eu conseguir convencê-lo a fazê-la sua companheira, você tem certeza de que está preparada para deixar este mundo e todos que conhece? Seus amigos, sua família? -Desde que o vi, não consigo tirá-lo de meus pensamentos. -Devo considerar isso um sim, definitivamente? -Deve. -Quantos anos têm agora, Susan, ou melhor, Mary. -Dezesseis anos, Bianca. -Dezesseis anos… Pobre criança não tem ideia da eternidade, de sua grandeza e solidão… -Mas tenho ideia dos poucos anos que viverei sobre este mundo mortal, anos que para nós, são muitos, mas comparados a esta eternidade são ínfimos, anos que deverei vagar solitária por este mundo, sabendo que meu grande amor encontra-se solitário em algum ponto da eternidade. Aos dezesseis anos, você e Emanuela fizeram aquele pacto de sangue, sabiam o que era o Amor. -Sabíamos, mas pergunto-lhe, de que isso adiantou? Emanuela não teve coragem para me seguir, veja quantos séculos vaguei em busca dela, e agora, tenho que lutar para despertar em seu coração a lembrança de um amor enterrado pelo tempo… Você vai precisar de coragem para seguir M.III. -Segui-lo-ei até onde for necessário. -Vejo convicção em teus olhos. Ontem me perguntaste se Susan é de alguma forma tua antepassada. Posso responder-lhe tranquilamente que sim. Sua família originou-se da família formada por Leonna e Lúcio. Antes de morrer perdido no mar, Marcus teve dois filhos ilegítimos, com uma camponesa casada. Esses filhos foram criados pelo marido dela, que jamais desconfiou das traições da esposa. Eram um casal, Marcelle e Antony. Cada um deles tomou seu rumo, tendo filhos e netos e bisnetos, e, da mesma forma que se pode acompanhar na linhagem de Emanuelle, aconteceu na tua: árvores genealógicas cheias de ramificações… Teus pais, da mesma forma que os pais de Emanuela, têm em Susan uma antepassada em comum. Sabe qual deveria ter sido teu nome de batismo? -Susanne. -Exatamente, Susanne. Mas teus padrinhos não permitiram, insistiram em Mary, talvez, inconscientemente, Mary seja um diminutivo de Marianne. -Posso te perguntar uma coisa? -Sim? -E Cristhine? A vampira que lhe trouxe para este mundo? -Ainda somos grandes amigas, ela conseguiu encontrar sua companheira de eternidade, vivem em uma ruína Grega… São Paulo, 20 de Junho de 1996, Quinta-Feira.        Emanuela ainda não consegue acreditar na existência de Bianca, para ela, tudo isso não passa de uma invenção da minha mente sem ocupação… Ela até me confessou o sentimento que efetivamente nutre por mim, mas têm certeza de que deve ter deixado ao meu alcance alguma carta ou seu diário, alguma anotação onde confesse isto… Se ao menos Bianca concordasse em revelar-se por alguns segundos, se deixasse Emanuela sentir-lhe o olhar, o leve odor de rosas, tocar aquelas mãos frias, mas ao mesmo tempo ardentes… Talvez Emanuela pudesse então compreender a solidão de quem a buscou por séculos a fio… Talvez… Enquanto isso, eu aguardo impaciente pelo contato de M., por menor que seja… Apenas um sonho, ou uma leve aparição… Por onde andará meu amor? Onde estará você, M.? São Paulo, 21 de Junho de 1996, Sexta-Feira.   Bianca apareceu em meu quarto esta noite, pediu-me que entregasse a Emanuela um embrulho, tratava-se de um objeto pesado, embrulhado em um pedaço de pano branco; não simplesmente entregar-lhe, mas entregar exatamente quando o relógio marcasse meia-noite, numa noite de lua nova, isso quer dizer que amanhã poderei fazê-lo, pois estamos no segundo dia dessa fase da lua. Pedirei a Emanuela que durma aqui em casa, para podermos estudar juntas, e, quando for o horário adequado, entregarei a ela o embrulho… Meu coração arde em curiosidade por saber o que se encontra oculto sob o pano branco… Nunca antes toquei um tecido assim, não parece nada com os sintéticos que costumo utilizar, nem com linho ou algodão… O que seria? Talvez seja seda…

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