O diário de Mary (XII)

BIANCA

São Paulo, 14 de Junho de 1996, Sexta-Feira.
Decidi que não contarei nada a Emanuela. Não diretamente. Estou digitando num disquete todos os meus sonhos, poemas e comentários e entregarei a ela, como se fosse apenas um livro que escrevi. Ela me confiou ontem a caixinha rosa onde guarda os poemas, com medo que os pais achem e leiam, então posso dizer que li e usei na “história”, e veremos o que ela acha…Bianca não aparece para me inspirar nada desde ontem, talvez também esteja exausta após tão longa viagem através dos tempos…As lembranças devem machucá-la…
São Paulo, 16 de Junho de 1996, Sábado.

Hoje Emanuela estava bastante desapontada, sente falta dos poemas… Entreguei-lhe o disquete com o relato de meus sonhos… O que ela achará?
Por onde estará Bianca? E Lorde M. III, por que não aparece? Quero vê-lo, vê-lo de verdade, frente a frente, não apenas em sonho. Quero tocar-lhe as mãos frias e sentir aqueles olhos sobre meu corpo.

São Paulo, 17 de Junho de 1996, Domingo.
 
Emanuela amou a história… Disse que tenho talento e deveria ser escritora. Disse a ela que é verdade, que eu escrevi os poemas e sonhei, noite após noite, cada cena que descrevi e que conheci Bianca e que estou apaixonada por M.; ela riu… Disse que eu preciso é arranjar um namorado e esquecer tudo isso… Talvez publicar o conto, quem sabe? Como é difícil explicar que o amor da vida dela é uma mulher que viveu há séculos atrás e agora a quer para si, para completar sua eternidade…
Bianca não tem aparecido em meus sonhos, nem em minhas noites. Não tenho tido mais inspirações poéticas. Emanuela ainda não acreditou que tudo que escrevi não é apenas fantasia. A cada momento, penso em M.III, não sei mais o que posso fazer o que posso pensar. Amo M.III? Como posso amar alguém que nunca vi? Ele existe? Bianca existe? Será que imaginei tudo isso? Mas, e os poemas?

São Paulo, 18 de Junho de 1996, Segunda-Feira.
 
Hoje pela manhã, logo que acordei, encontrei aos pés de minha cama uma rosa, uma única rosa. Peguei-a e um espinho perfurou meu dedo. Nunca antes eu havia parado e observado a beleza de uma gota de sangue a escorrer. Guardei a rosa com carinho em uma pasta e levei-a comigo ao colégio, para mostrá-la a Emanuela, contei-lhe onde e como encontrei aquela flor rubra… Isso pareceu deixá-la um tanto apreensiva.

São Paulo, 19 de Junho de 1996, Terça-Feira.
Acordei de madrugada, ainda estava muito escuro, um vento frio invadia meu quarto. Podia sentir a presença de Bianca. Ela surgiu, como se materializando no ar, bem em frente a minha cama. Vestia um vestido vermelho, longo, decotado e possivelmente, as costas ficariam de fora, não fosse uma capa negra, longa, que ia até os pés… Um leve cheiro de rosas invadia o ar… Seus olhos azuis me encaravam firmemente, enquanto falava devagar:
-Boa noite, Mary.
-Boa noite, Bianca.
-Sei que deve estar pensando que desapareci que a deixei na mão, mas saiba que estive sempre por aqui, só não queria fazer-me presente durante todo o tempo. Acho que deseja me fazer algumas perguntas, não?
-Por que não apareceu estes dias?
-Estive apenas observando teu comportamento. Arrisco-me a dizer que estás apaixonada.
-Por que apareceste para mim? Por que não apareceu diretamente para Emanuela?
-Tenho acompanhado a vida de vocês desde que nasceram, sei dos sentimentos que se passam em seus corações, principalmente no de Emanuela. Sei que você a ama, mas apenas como amiga. Já ela acredita amar-te, ela fica com garotos, mas pensa em você, não aceita sentir-se atraída por você.
-Emanuela? Ama-me?
-Não. Ela se sente atraída por você, acredita que a ama, ficou mais feliz do que você imagina quando você disse que os poemas eram teus, e mais desapontada do que ela mesma aceita, quando soube que eram na realidade os meus poemas.
-Isso não responde o porquê de não ter aparecido diretamente na vida dela, por que está tentando me usar para atraí-la?
-Ela pensa que te ama, resistiria muito se eu me revelasse a ela.
-Quem é M. III?
-Você sabe quem ele é, conheceu a vida dele.
-Eu o amo?
-Isso, apenas você poderá saber.
-Quero dizer, Susan é minha antepassada?
-Talvez. Susan e M. viveram uma linda história de amor, mas nunca houve um pacto de sangue entre os dois, Susan morreu naturalmente, ao dar a luz, nada obriga sua alma a vagar pelo mundo em busca de M. Porém, é possível que sejas a continuação do sangue de Susan sobre a terra, não te esqueças de que o sangue dela e o da família M. se misturaram, gerando um filho, que tomou o lugar do verdadeiro filho de M. e sua esposa, portanto, através deste labirinto de árvores genealógicas, pode muito bem acontecer de você ser uma parente distante de Susan, e de Emanuela, não se esqueça.
-Imagino todas as noites uma visita de M. sinto-me atraída por aqueles olhos frios e distantes, desejo-o.
-Sei disso, posso senti-lo.
-Onde ele está? Quero vê-lo.
-Chegamos a um ponto muito interessante… Veja bem, amo Emanuela, mas jamais poderia tentar aparecer em sua vida diretamente, ao menos enquanto ela alimentar a ilusão de que te ama. Você ama M., que jamais se recuperou da perda de Susan. Você está perto de Emanuela, eu estou perto de M., acredito que podemos nos ajudar.
-O que eu devo fazer?
-Convença-a de que o amor de sua vida sou eu, que é tudo real.
-Como?
-Existe uma coisa que ela jamais revelou a ninguém, mas que você sabe, pense.
-O que ela sente por mim?
-Garotinha esperta. Use isso. Fale para ela que você sabe o que tem se passado naquele coração, mas deixe bem claro que eu te contei, ela vai negar até o último instante, mas em seu íntimo, começará a surgir uma grande dúvida, ela começará a acreditar em minha existência. A propósito, mandarei um beijo teu a M.
Dizendo isso, Bianca desapareceu no ar novamente, da mesma maneira como havia aparecido. De sua presença ficou apenas o leve odor de rosas.

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