O diário de Mary (X)

BIANCA

São Paulo, 12 de Junho de 1996, Quarta-Feira.

      Bianca acompanhava ao longe a vida de Giovanna, viu-a crescer, tornar-se uma jovem bela e atraente, ainda que um pouco triste… como era tradição, casou-se com um nobre, com quem teve dois belos filhos, Helena e Lucas. Faleceu aos 35 anos.

            Helena casou-se com um belo e nobre cavaleiro. Lucas tornou-se cavaleiro e desposou uma nobre de família influente, unindo assim os dois brasões. Eles tiveram filhos… E netos… E bisnetos… E tataranetos…

           O Feudalismo pouco a pouco perdia forças, ia surgindo uma nova classe, a burguesia e um novo sistema, o mercantilismo. A família de Emanuelle, ou melhor, a família que resultara da união de Emanuelle ao jovem Richard II, ficava cada vez mais poderosa e influente. O tataraneto de Emanuelle, Lorde M. III, era um cavaleiro belo e muito poderoso, controlava brutalmente seu Feudo, mantendo os camponeses sob domínio com mãos de ferro, mas apesar disso, era um rapaz sensível e muito doce, buscava um amor verdadeiro, alguém que o amasse com ternura. Encontrou este amor quando conheceu Susan, uma camponesa muito pobre que vivia com seus pais. Devido à sua posição, M. jamais poderia desposá-la oficialmente, mas como seu sentimento foi correspondido, eles passaram a viver uma tórrida estória de amor. Ele casou-se com Ana, filha de um Duque, ampliando assim suas posses; mas levou Susan para trabalhar em seu novo lar. Durante o dia, ela cuidava da cozinha, de madrugada, M. saía sorrateiramente de seus aposentos e ia encontrar a jovem serva… Com o passar do tempo, a esposa foi-se acostumando a essas escapadas noturnas, como não o amava não se importava com quem ou onde ele estava.

            Ana e Susan engravidaram ao mesmo tempo e iniciaram o trabalho de parto na mesma noite, era uma madrugada fria e o vento soprava pelos campos. Uma névoa espessa cobria toda a visão. Uma noite escura e cruel para o nascimento de dois novos seres. Infelizmente, o bebê de Ana não sobreviveu. Susan também não resistiu ao dar à luz.

  1. ordenou à parteira que colocasse o bebê de Susan no berço, ao lado de Ana, que havia desmaiado e não sabia que seu filho não havia resistido.

            A menina, a quem chamaram Marianne, cresceu sobre os mimos do pai e a indiferença da mãe. Casou-se aos 16 anos com um primo distante, que morava num ducado situado no interior da França. Ela teve três filhos: François, Leonna e Julianne…

            Três crianças, três destinos…

            François, o único homem, foi um soldado valoroso e morreu numa batalha, muito longe de sua terra. Julianne, uma jovem bela que desde muito jovem mostrou inclinações à vida religiosa, não se casou, sendo enviada para um convento aos 17 anos, onde permaneceu até o final de seus dias… Leonna não era assim tão bela quanto Julianne, mas mesmo assim, havia nela algo inexplicável que inebriava todos ao redor… Ela apaixonou-se por um jovem mercador Português e fugiu com ele para uma pequena cidade no interior do país… Com isso, extinguia-se oficialmente a família iniciada por Emanuelle e Richard II séculos atrás… M III, inconformado com a fuga da neta e com a desonra que isto causava ao nome de sua linhagem, que já não poderia continuar, entregou-se ao desespero e a toda espécie de vício.

            Certa noite, quando voltava sozinho pela estrada, uma figura encoberta por uma capa, uma bela garota com uma capa negra o fez parar. A noite estava quente e muito escura, a única luz era a da lua cheia e ele estava tão embriagado pelo vinho que nem sentiu quando a bela jovem mordeu-lhe o pescoço..Inconsciente, não opôs nenhuma resistência, nem mesmo quando Bianca o Beijou.

            Leonna e Lúcio, o mercador, tiveram apenas dois filhos, gêmeos, Julius e Marcus. Sua vida foi extremamente pobre, muito diferente do conforto ao qual estava acostumada. Não tinham servos ou escravos, mas mesmo assim, eram felizes.

            Julius e Marcus tornaram-se mercadores, tal qual o pai. Apesar disso, seguiram caminhos diferentes. Julius entre suas viagens conheceu uma linda inglesa, Camile, filha de um comerciante com o qual sempre negociava. Casaram-se.

            Marcus dedicou-se ao comércio marítimo, mas infelizmente não sobreviveria muito tempo. Leonna e Lúcio jamais souberam ao certo em que circunstâncias a nau em que Marcus viajava havia desaparecido.

            Após algumas semanas, M. despertava num castelo sombrio. Não se lembrava de como havia chegado até ali. Uma bela jovem veio recebê-lo. Disse que se chamava Bianca e havia sido serva de sua tataravó, Emanuelle, filha do primeiro Lorde M., com o tempo, Bianca contou-lhe toda a história de sua família, com detalhes, mostrou-lhe todo o castelo, os aposentos de Emanuelle. M. não entendia o porquê de Bianca tê-lo trazido para aquele mundo. A razão era simples: após tantos séculos, Bianca já não aguentava mais viver ali sem companhia, e M. tinha uma estória semelhante à dela, também havia vivido uma história de amor com uma pessoa de classe social diferente. Aos poucos, M. acabou perdoando Leonna por ter fugido com seu amado. De que valia a honra do Brasão de sua família, se para mantê-la era preciso que se sacrificassem tantos sentimentos?

            Camile e Julius tiveram 12 filhos e 15 netos. Com o passar dos anos, cada um foi partindo para um lugar diferente. Algumas meninas dedicaram-se à vida religiosa, outras se casaram. Alguns rapazes tornaram-se mercadores, outros artesãos. Vieram netos, depois vieram bisnetos e novamente tataranetos. Bianca seguia ansiosamente cada novo membro daquela numerosa família, na esperança de reencontrar seu amor que estava perdido no tempo.

            Uma das bisnetas de Camile, Andréa, casou-se Leonel, um francês, dono de uma oficina de costura, a quem não amava. Viviam na época de Luís XIV,o auge do absolutismo francês. Andrea tornou-se amante de um nobre, de quem engravidou, seu marido criou aquele garoto como seu filho, pois nunca soube das traições da esposa. Nessa época, Andréa, Leonel e o pequeno Matheus foram morar numa colônia Francesa na América do Norte, o Canadá.

              “É incrível, em apenas uma noite, um sonho me revela tantas coisas acerca de um passado tão distante que, sempre que eu paro para pensar, me parece uma fantasia”… Mas hoje, neste sonho, há algo que me chamou atenção especialmente. Aqueles olhos azuis. Lorde M III, aquele lindo vampiro de olhos azuis. Meu coração bateu mais forte quando o vi… Por um momento, desejei que ele me tomasse nos braços e me levasse deste mundo para viver para sempre ao seu lado…”

             Este é o poema que deixei na porta de Emanuelle hoje à noite, mais do que nunca, sei que não são minhas palavras… Esse erotismo todo… Não seria possível, nunca fiz amor com ninguém, jamais entreguei meu corpo, como poderia escrever essas palavras?

Quando penso em ti,
Uma chama se acende em mim…
Sinto cada parte do meu corpo despertar…
Teu cheiro me atrai…
Quero tomá-la em meus braços…
Prende-la…
Despi-la
Esfregar meu corpo no seu,
Para que em minha pele você possa sentir o desejo,
Possa sentir-me arrepiada,
Louca de vontade de fazê-la minha…
Deixar que minhas mãos te percorram…
Toquem-te…
Beijá-la
Sentir o calor da tua pele me incendiar…
Quero fazê-la minha mulher…
Minha e somente minha…
Quero ouvi-la gemer…
Gemidos vigorosos, intensos
De desejo e de prazer…
Dançar sensualmente para você…
Para que tenha essa vontade animal de me dominar…
Subjugar meu corpo
E aos teus desejos mais selvagens…
E deixarei que o faças,
Deixarei que me domines…
E,
Quando menos esperar…
Voltarei a dominá-la,
Pois essa noite,
Você é minha… Minha mulher
Minha fêmea…
Minha amante…
Minha princesa…
E eu te conduzirei
Através das chamas do desejo…
Levar-te-ei às paisagens proibidas da paixão ardente…
Meus lábios percorrerão teu corpo,
Quero beber teu sabor…
Tua essência…
Farei de você meu labirinto…
Vou me perder em teus braços,
Em teu corpo,
E nele me encontrarei…
Voaremos entre nuvens de prazer…
Até não aguentarmos mais…
Até o êxtase…
Até a explosão final de nossos desejos…
E, então,
Nossos corpos exaustos,
Quentes,
Molhados,
Insaciáveis,
Tomarão novamente a trilha do prazer…
Novamente te guiarei
E por ti serei guiada…
E, durante toda a noite,
Não existirá mais nada,
Nada além de nós,
E de nosso mundo de prazer…

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