O Diário de Mary (IX)

BIANCA

São Paulo, 11 de Junho de 1996, Terça-Feira.

“Os dias que se seguiram foram de adaptação. Bianca aprendia a caçar para alimentar-se. Acostumava-se a vagar à noite pelas matas fechadas, e pelas estradas sombrias. Deslocava-se com rapidez e agilidade cada vez maiores, e, em algum tempo, já estava conseguindo influenciar a mente das pessoas, atraindo-as para o lugar onde estivesse escondida e, em seguida, fazendo de seu sangue o suculento jantar do qual necessitava…
Alguns meses depois, quando já estava mais forte, foi até o castelo onde vivia sua amada Emanuelle. Penetrou lentamente todos os cantos. Viu que no quarto onde vivera, agora jazia adormecida uma linda garotinha, devia ter uns quatro anos. Chegou perto do berço e afogou-lhe os belos cabelos. A pequena acordou e pôs-se a chorar. A ama entrou no aposento, não podia ver Bianca, mas sentia sua presença… Um frio intenso… Embalou a pequena e abraçou-a, tentando acalmá-la… Bianca saiu do aposento, e, como por um milagre a pequena parou de chorar. Encontrou Emanuelle adormecida. O marido havia viajado, demoraria alguns dias para retornar. Bianca a tocou com suavidade… Podia sentir o coração de Emanuelle. Acariciou-lhe os longos cabelos, sentiu a pele, o cheiro de sua amada. Sua vontade era tomá-la para si, amá-la como naquelas noites sob o luar… Retirou de dentro das vestes aquele punhal com o qual haviam, anos antes, feito aquele pacto de Amor e Sangue…cortou-se, apenas para marcar a lâmina e coloco-o nas mãos de Emanuelle, fazendo-a acordar quando sentiu aquela lâmina fria.
Emanuelle acordou assustada. Podia sentir a presença de Bianca. Era como se sentisse seu cheiro. Só depois de alguns minutos, deu-se conta de que segurava nas mãos um punhal, ainda manchado com sangue… Lágrimas de desespero começaram a cair de seus olhos quando reconheceu aquele punhal. Olhou em seu braço, ali ainda estava a cicatriz da última vez que havia visto Bianca. Lembrava-se da promessa de que viria buscá-la. Viera a primeira filha. Depois o garoto. Cinco anos haviam se passado, e nada… E agora aquele punhal e aquela sensação de não estar mais sozinha como antes… O que significaria?
Um vento gelado faz com que as velas se apaguem… Bianca sente uma mão segurar a sua, e uma voz doce e suave lhe diz:
-Passaram-se cinco anos, mas eu jamais me esqueci da promessa que lhe fiz, vim para buscar-te…
Emanuelle não consegue enxergar Bianca, mas consegue senti-la…
-Onde está você?
-Estou bem aqui, ao teu lado, segurando tuas mãos…
-Não consigo vê-la, mas posso senti-la…
-Quer me ver?
-Quero…
Bianca torna-se visível para seu amor… Para ela, os anos não passaram, continua a ser aquela jovem de dezesseis anos, embora já tenha vinte e um. Emanuelle fica chocada ao notar que nada mudou… Bianca pede que Emanuelle siga com ela, para a eternidade. Emanuelle pede apenas um instante, para que possa pegar seus filhos, mas Bianca explica-lhe que não poderão levar as crianças. Elas não resistiriam e morreriam. Explica-lhe que só poderão ficar juntas se Emanuelle deixar-se transformar em uma vampira, um ser da Escuridão Eterna… E que duas almas inocentes jamais conseguiriam romper as barreiras energéticas desse caminho… Seriam levadas para a Luz, e para a Morte…
Emanuelle não têm coragem para abandonar os filhos em nome do Amor de Bianca. Despede-se da amada chorando… Adormece com o punhal negro nas mãos…

Três anos depois, Bianca retorna aos aposentos de Emanuelle… Ela está muito fraca e doente… Estava grávida do terceiro filho, mas a peste que estava assolando toda a Europa e não havia poupado a casa do Lorde Richard II. Ele mesmo havia falecido vitimado pela horrível doença, assim como seu filho… Restavam apenas sua filha, Giovanna, e Emanuelle, que esperava pacientemente o nascimento do novo bebê… Já não podiam interromper a gravidez em estágio avançado, e ela estava muito fraca para dar a luz… De qualquer maneira, provavelmente morreria… Embaixo de seu colchão, o punhal negro.
Giovanna entra nos aposentos da mãe, que começa a lhe contar sua estória preferida, a estória da Princesa que se apaixona por um lindo camponês e é separada dele… Ele se suicida para poder estar sempre e sempre perto da linda princesa, a quem ele ama mais do que tudo… Mas ela não pode deixar essa vida para ficar com ele, pois se tornou uma rainha e tem dois lindos principezinhos que precisam dela… Como sempre, Giovanna diz que, um dia os dois não vão mais precisar da rainha, então, ela poderá partir com seu amado…
Bianca sente no tom de Emanuelle ao contar esta estória, que se trata de uma adaptação à estória delas… Giovanna é retirada do quarto… Emanuelle começa a sentir as primeiras dores, embora ainda seja demasiado cedo, passaram-se apenas seis luas… O bebê vem ao mundo já sem vida… A mãe está muito fraca e pede que a deixem só. Bianca chega-se à beira do leito de sua amada, que lhe pede que a leve com ela… Bianca sabe que talvez Emanuelle esteja muito fraca até mesmo para partir com ela, mas, mesmo assim, suga-lhe delicadamente um pouco do sangue… Sente a alegria de saber que vai juntar-se a amada, e a amargura por deixar nesse mundo cruel sua pequena Giovanna… Bianca beija Emanuelle, que mesmo assim, não sobrevive à própria morte… E Bianca se vê novamente arrancada dos braços de sua amada… Pega o punhal, guarda-o nas vestes e sai em direção à madrugada vazia…
Todos os habitantes do castelo foram vitimados pela peste naquele ano, exceto Giovanna, que foi acolhida por parentes muito distantes de seu pai. O castelo ficou abandonado, e todos os que se aproximavam de lá tinham uma morte misteriosa. Bianca passou a morar naquele lugar. Dormia no aposento que fora de Emanuelle e jurava que ainda iria encontrá-la novamente, precisasse de quantos séculos fosse para isso… Mas ia reencontrá-la…”

“Toma-me em teus braços, como se nunca mais fosse preciso partir… A vida sem você não tem motivos, então simplesmente, aceite o que não pode ser mudado… ame-me e deixe eu te amar… quero-te para sempre, perto de mim, perto de meu coração…
Se um dia me procurar e não achar, saiba que, onde eu estiver, estarei com você… Como estou agora… Longe, mas meu coração já não bate em meu peito… Ele está contigo… Apenas esperando que você esteja comigo, totalmente entregue a um sentimento tão puro que invade meu espírito e minha vida… Tão doce, que chega a ser amargo, quando você não está perto de mim…”

Amo-Te.”

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