O Diário de Mary (VII)

BIANCA

São Paulo 09 de Junho de 1996, Domingo.

“A vida de casada era um sacrifício enorme para Emanuelle. ela não gostava do marido, que se mostrava sempre frio, distante e muito bruto… Passava os dias em companhia das damas, ou na igreja, como era obrigação das senhoras nobres… Bianca e ela não podiam demonstrar o amor que sentiam, sendo forçadas a manter-se separadas, apesar de Bianca ainda ser a serva pessoal de Emanuelle… Várias vezes Bianca propôs que fugissem, fossem para algum lugar muito, muito distante, mas sabiam que era impossível, que sozinhas não chegariam a lugar algum, que Lorde F. mandaria seus exércitos buscar sua nora onde ela estivesse…

Logo, Richard II encontrou entre seus amigos nobres um esposo para Bianca, era uma grande honra para uma camponesa tornar-se esposa de um jovem nobre, com as bênçãos da Igreja… Em séculos isso jamais havia acontecido, as camponesas que caiam nas graças de um nobre eram simplesmente usadas para a satisfação de seus caprichos sexuais e depois relegadas novamente à pobreza, ou mesmo à morte… Bianca deveria sentir-se honrada com isso, mas seu coração sangrava de dor:Após o casamento, teria que mudar-se para o castelo de seu esposo e senhor, e dificilmente voltaria a ver Emanuelle.
Várias vezes ela fugia durante a noite, ia conversar com seus Deuses, que a cada dia pareciam mais distantes… Ou ela estaria tão mergulhada em sua dor que já não conseguia ouvi-los… Já não conseguia sentir senão as trevas da noite…
Era uma linda noite de Lua Cheia. Seu casamento com o cavalheiro D. seria na tarde do dia seguinte. Emanuelle consegue ir até o quarto da amiga e pouco antes de deitar-se Bianca a toma nos braços entre lágrimas…mostra-lhe um punhal de cabo negro escondido em seu vestido… Diz que a ama, e sempre a amará, e que jamais conseguirá separar-se dela. Diz que finalmente arranjou um jeito de fugirem juntas: A morte seria a libertação de seus espíritos. Fazem um pequeno corte nos braço e juntam o sangue que brota. Juram amar-se para sempre:

“Hoje e para sempre,
Bianca e Emanuelle,
Amor e Sangue que mantêm vivos dois corpos
E Um coração…
Pela eternidade,
Nosso Amor nos unirá,
Seguiremos uma a outra,
Enfrentando qualquer obstáculo,
Com a coragem de um cavaleiro,
E a pureza de uma criança.
Nosso sangue une nosso destino,
E apenas poderá nos separar,
A falta do nobre dom…
Apenas o medo,
Poderá nos afastar…”

Bianca diz que sairá furtivamente do castelo, e, exatamente à meia-noite, quando todos os espíritos vagam, ela cravará no peito aquele punhal, sob a luz da lua, e que, quando estivesse pronta, voltaria para buscar Emanuelle, que só poderia juntar-se a ela na eternidade se tivesse um Amor verdadeiro e coragem, para abandonar qualquer outra coisa que a prendesse a este mundo.
A única luz é a da lua que brilha exatamente no meio do céu. A jovem Bianca retira o punhal das vestes. Beija sua lâmina, ainda suja com o sangue de sua amada. Lentamente, passeia com ele por todo o corpo, despedindo-se daquela carne que durante dezesseis anos fora sua morada… Sua avó sempre lhe ensinara que apenas os Deuses têm o direito de decidir quando devemos deixar este mundo, mas os Deuses a esqueceram… Talvez estejam mortos, subjugados pelo novo e vingativo Deus cristão… Este também não concorda com o que ela irá fazer, mas é a única maneira de se libertar… E logo Emanuelle virá com ela, nessa jornada rumo ao desconhecido…

Sem saber o porquê, recita:

“Forças Misteriosas,
Seres noturnos,
Eu os invoco…
A vocês, minha alma entrego,
Arrebatem-me deste mundo cruel,
Deem-me forças,
Cubram-me de escuridão,
Para que com frieza
Possa eu enfrentar a crueldade daqueles que
Querem me tirar o ar que respiro,
Tirando de mim meu único e precioso tesouro…
Meu sangue está correndo em suas veias,
E o meu nas dela…
E esta noite, nos uniremos para sempre…”
Ela crava, sem dó, o punhal no peito… O sangue mancha de vermelho o vestido branco… Agoniza, mais antes que seus olhos se fechem de vez, ela pode ver uma figura vindo em sua direção… Têm cabelos escuros, lisos e longos… Dá pra perceber por debaixo da capa negra que é uma mulher… Ela chega e acaricia os cabelos daquela bela jovem que acabara de pôr um fim à própria existência como ser humano… Retira-lhe o punhal do peito, e experimenta o sabor do sangue… É puro, não traz maus sentimentos, apenas uma dor profunda e torturante, e muito medo… A criatura chega perto do pescoço, mordendo-lhe e sugando um pouco daquele sangue… Em seguida, beija os lábios de Bianca, o beijo que lhe trará de volta à vida, uma vida Eterna.
O corpo da jovem Bianca nunca foi encontrado”

Esse sonho me assustou… Seria possível que Bianca seja uma Vampira? Vampiros são criaturas da imaginação popular… Sempre ouvi tantas estórias sobre eles, mas são apenas estórias… Ou não?

Hoje não escrevi um poema para Emanuelle, mas sim uma longa carta…

Chega a noite… Meu coração ainda busca o abrigo que em vão procurou durante todo o dia. Olho para o céu… As estrelas frias e distantes não podem me dar calor… Não podem abrigar esse coração que sofre a ausência do teu amor…
Sem você aqui, quem pode me fazer sorrir? Quem pode tocar o fundo da minha alma? Revirar meus sentimentos no avesso e mostrar a minha face oculta? Sua lembrança desperta a doçura e a delicadeza em meu espírito… Só você me desperta para a doçura da vida, para o Amor… Só você inspira meu coração, só você me faz feliz… Faz-me bem… Só você pode aquecer-me nas noites frias… Só você me faz sentir completa, por que uma parte de mim está contigo… Você é minha alma gêmea, minha outra metade, minha razão de viver, de sentir, de sonhar… E eu preciso de você, como preciso respirar, preciso da sua luz e do teu calor… Preciso da tua paz… Você é a única ilha, o único porto onde posso atracar em meio ao oceano da minha vida…
Pássaros voam no céu… Não invejo sua liberdade, pois tudo que quero é estar presa à você, ao teu espírito e ao teu corpo…quero me prender para sempre em você, e mesmo que tenha uma chance, nunca quero escapar, nem fugir do teu amor…pois sem ele, sei que não sou nada, nada além de uma sombra, um pedacinho de uma alma que vaga perdida, buscando sua outra metade, seu caminho…e sei que a parte de mim que procuro, só poderei encontrar nos teus olhos…
Solitária, vou dormir… Vou tentar encontrá-la nos meus sonhos… Sei que acordarei e não você não estará ao meu lado, sei que novamente, choverão lágrimas de saudade em meu olhar… Sei de tudo isso… Mas ter mais uma vez a sensação de estar nos teus braços, mesmo que nos breves segundos de um sonho, é suficiente para que eu enfrente toda a dor de não ter você aqui, e nem ao menos saber se neste momento, em algum lugar, você também está sozinha e sentindo saudades de mim…e de imaginar que, se estiver assim, triste como eu, por algum motivo que foge ao meu olhar, não estou contigo, para fazê-la feliz com o Amor que guardo só para você…e, entre lágrimas, meu ultimo suspiro antes de adormecer é o teu nome…

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