O Diário de Mary (VI)

BIANCA

São Paulo, 07 de Junho de 1996, Sexta-Feira.

Continuo a narrar aquele sonho que outra noite começou a me mostrar algo que ainda não consigo compreender ou acreditar completamente…
“No castelo do Lorde M. Bianca foi recebida por criadas que trataram logo de banhá-la e vesti-la com roupas apropriadas à sua nova posição de serva pessoal e dama de companhia da Srta. Emanuelle.
Em seguida, foi conduzida à presença do capelão, onde teve que jurar, aos pés da Santa Cruz, nada fazer que viesse a desonrar a família que a estava acolhendo com tamanha generosidade.
Após este longo ritual, o próprio Lorde M. foi ter com a nova serva. Explicou-lhe que Emanuelle tinha ali tudo o que precisava uma jovem, mas apesar disso, faltava-lhe um pouco de companhia. Todas as suas damas eram muito mais velhas que ela, e, embora ela recebesse freqüentemente a visita das filhas de outros nobres da região, ele podia notar-lhe um ar de tristeza… Ela havia se mostrado encantada com a acolhida que recebera naquele casebre, numa noite de chuva, perguntava às damas como poderia uma jovem tão simples ser-lhe tão simpática, quando tinha todos os motivos para invejá-la ou odiá-la. Por isso Lorde M. havia decidido dar-lhe como serva aquela camponesa, e assim, mandou buscar Bianca em seu casebre.
Naquela primeira noite, Bianca dormiu sozinha em seu novo quarto, ao lado do aposento da Srta. Emanuelle. Havia chegado ao castelo ao entardecer, e, após toda aquela recepção, já havia anoitecido, por isso, ela e Emanuelle não puderam encontrar-se. O medo tomava conta de seu espírito naquele quarto escuro, tão distante das forças da natureza, da terra, com as quais Bianca estava acostumada a unir-se. Sua avó conhecia muitos segredos,muitas ervas, sabia dizer, olhando para o céu ,quando algo de ruim, ou muito bom estava para acontecer… Ela havia passado este dom à sua mãe, e também à Bianca, que, afastada de seu lar, sentia-se deslocada.
O dia seguinte foi cheio de novidades. Emanuelle a manteve ocupada durante todo o tempo ensinando-lhe como deve portar-se uma jovem de respeito. Nada de correr pelos campos e rolar na grama com os garotos, nada de beijos furtivos entre os arbustos, ou banhos de rio, o corpo deveria estar sempre muito bem coberto, Bianca ganhou muitos trajes novos, ficara deslumbrante, quase tão bem vestida como sua ama, Emanuelle.
Novamente à noite, foi deixada em seu quarto escuro e solitário, porém confortável. Chorou, pois sentia muita falta da família, mas sabia que não estava ali à toa, fazia parte do seu destino viver ao lado de Emanuelle.”
Após acordar, me vesti correndo para ir ao colégio, queria contar tudo à Emanuela, mas algo mais forte me impede de falar quando desejo, não consigo entender o que está se passando… Novamente, em meio à minha caminhada noturna, deparei com Bianca naquela mesma rua escura. Ela sorriu para mim, um sorriso pálido e triste como tudo nela, veio em minha direção e segurou minhas mãos, que sensação horrível, mãos geladas, quase cadavéricas… Mas os olhos azuis expressivos pareciam querer dizer que em breve, eu descobriria o porquê de tudo isso…
Fico impressionada ao ler as palavras que escrevo para Emanuelle, sei que não são minhas palavras, nem meus sentimentos, sei que não sou assim tão lírica, tão doce e ao mesmo tempo tão amarga e infeliz… Mas sei que gostaria de ter ao menos um pouquinho deste talento e desses sentimentos…

 

“Se hoje fosse o último dia deste mundo…
Se nunca mais houvesse flores…
Se as águas parassem de correr…
Se aos poucos, toda a respiração fosse sendo sufocada…
O céu escurecesse…
Se o planeta estivesse, a partir de agora, condenado à destruição…
O que dirias?
Em quem viajariam seus últimos pensamentos?
O que desejaria fazer, em seus últimos instantes nesse mundo?
Quem buscaria?
Nos braços de quem gostaria de estar, quando alcançasse a Eternidade?
Não sabes? Nunca pensastes nisso antes?
Também nunca havia pensado…
Por que penso agora? Não sei…
Não penso…
Mas, sem pensar,
Sei todas as respostas…
Se nunca mais houvesse flores…
Roubaria à última rosa, e te daria…
Levar-te-ia tomar um banho de cachoeira,
Para que pudesse guardar a sensação da água correndo pelo teu corpo…
Respiraria por ti…
E apesar da dor,
Faria dos meus olhos luz para iluminar os últimos momentos…
E sussurrando, cantaria uma canção, para acalmá-la…
Meus pensamentos viajariam pelos momentos em que estivemos juntas…
E também pelos momentos em que não pudermos estar perto…
Mas em que nossos corações nunca se separaram…
E, nesses últimos momentos… Apenas te olharia…
E te confortaria…
E buscaria teu abraço…
E, nos teus braços,
Alcançaria a Eternidade…”.

“Aos poucos, Bianca ia sendo absorvida pela rotina do castelo, muitas missas, e também festas noturnas no salão reservado aos nobres – onde ela e Emanuelle não podiam entrar, pois não era adequado às donzelas ou senhoras de respeito. Impressionava-se à ausência do Lorde M. na vida de sua filha… sua família era tão pobre, mas estava sempre unida… à noite, contavam lindas estórias ao redor da fogueira… tradições antigas que falavam de Deuses, fadas, seres misteriosos… sua avó lhe ensinava as Artes dos antigos, que ainda sobreviviam, apesar de sufocadas pelo cristianismo… era tão feliz… Já Emanuelle, com todo aquele conforto, não tinha a companhia dos pais… sua mãe falecera poucos meses após seu nascimento, por isso não tinha irmãos, e seu pai estava sempre muito ocupado… crescera entregue aos cuidados das amas. Bianca passava horas contando à Emanuelle as estórias que ouvia da avó… aos poucos, ia nascendo uma amizade forte, incontrolável… Bianca deveria dormir no quarto ao lado de Emanuelle, mas passou a esgueirar-se furtivamente para o quarto da amiga, dormiam juntas, agarradas, e, pouco antes do sol nascer, Bianca voltava aos seus aposentos…

Bianca descobriu uma maneira de fugir do castelo à noite e, frequentemente, ela ia até a floresta, sentir aquelas forças selvagens que emanavam das matas sombrias… Passou a levar Emanuelle consigo em algumas dessas escapadas… Beijava-a sob a luz do luar e faziam amor na relva…
Passaram-se dois anos… Naquela noite seriam celebrados os quinze anos de Emanuelle… Era um dia especial… Naquele dia, lorde M. anunciou o noivado de Emanuelle com o filho mais velho do Lorde F., Richard II. Ao ouvir tal notícia, Emanuelle não pode controlar-se, lágrimas vieram lhe aos olhos… Lágrimas que ela teve que sufocar, em nome da honra de seu pai e do nome de sua família.
Ficou acertado que após o casamento, Bianca se mudaria juntamente com Emanuelle, continuaria a ser sua serva pessoal. Mas ambas sabiam que já não seria possível seus encontros furtivos ao luar”. Às vezes penso que, por pior que seja minha vida, ela ainda é bem melhor do que a vida de quem viveu a época feudal, ou a inquisição, ou tantas outras épocas anteriores à nossa… E isso também me faz pensar que, no futuro, os jovens acharão horrível a vida de uma jovem de 16 anos no ano de 1996…

“Meu” poema de hoje:
 
“O Amor…
O que podemos dizer sobre ele…
Se qualquer coisa que dissermos não conseguirá explicá-lo?
Ele simplesmente acontece…
Sem razão, sem por que…
E é mais forte que nós,
Ele nos leva ao paraíso,
E nos arrasta ao olho do furacão…
Traz-nos os melhores sonhos,
Os mais alegres momentos…
Dá-nos a vida,
Para em seguida nos sufocar…
E fazer-nos desejar que tudo pare,
E que não sintamos o tempo passar,
Até que possamos simplesmente acordar e dizer:
Nossa! Finalmente estamos juntas outra vez!
O Amor faz o tempo voar,
Quando estamos ao lado da bem-amada,
E faz passar devagar os segundos,
Quando permanecemos distantes…
Essa noite sonhou contigo…
Estavas tão linda…
Uma ninfa entre as flores,
Uma Deusa sobre as ondas…
Bailávamos na chuva,
Em teus braços eu flutuava…
Esta noite sonhei com teu olhar,
Com teu toque,
Teu beijo,
Teus lábios macios,
Tua pele,
Essa noite…
Acordei sozinha…
E cheguei a imaginar,
Que nossa história tenha sido um sonho…
Que nosso Amor tenha sido lenda,
Poesia ou canção…
Essa noite…
Mas sentindo o perfume da tua pele,
Que não sai da minha memória,
Lembrando teu olhar,
Fechando os olhos pra te sentir…
Sentir as batidas do teu coração,
Que nesse instante,
Está tão, tão distante…
E, sentindo meu coração longe do peito,
Viajando de encontro ao teu,
Sei que nossa história é real,
Assim como a distância que me machuca e sufoca,
Assim como o ar que respiro,
Como a água que bebo,
Como o Sol que aquece…
E sei que,
Sem você,
Não há sentido em existir,
Não há sentido em sonhar…
Nem em sorrir…
Mas,
Mesmo assim,
Encontro na tua ausência,
Uma última razão para viver…
A esperança,
Esperança de um dia poder fazê-la feliz,
De um dia saber,
Que você me ama,
Como eu amo você!”

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