O diário de Mary (I)

BIANCA

“O Amor verdadeiro nos indica o caminho… Mesmo que seja uma trilha estreita entre as rochas, sempre iremos segui-la… Mesmo que para encontrá-lo, seja preciso mergulhar séculos, transpondo qualquer barreira… Mesmo assim, ele estará lá, uma pequena estrela na escuridão, brilhando e nos fazendo ir ao seu encontro”.

São Paulo, 02 de Junho de 1996, Domingo.

Atravesso a imensidão da noite. Sob o vento gelado meu corpo estremece, lembro-me de todas as histórias sobre criaturas da escuridão que já ouvi. Um ruído em meio ao silêncio me assusta. Sei que não deveria estar aqui, mas o impulso de vê-la é mais forte e eu não consigo me controlar e esperar até o dia amanhecer… Algo me atrai até sua casa quando eu poderia simplesmente esperar a aurora… O despertador me acordaria e após um banho, um café quentinho me esperaria na cozinha… Eu iria até o colégio, iríamos conversar passar o tempo, estudar, fazer bagunça com os amigos… Ela passaria a tarde comigo, em minha casa… Talvez um filme, e depois, no final da tarde, eu a acompanharia até a sua casa, na despedida, diria “não se esqueça de sonhar comigo esta noite” e ela, como sempre responderia “sonharei, como em todas as outras”. Voltaria caminhando ao acaso no crepúsculo e, antes que a noite viesse libertar suas criaturas Misteriosas, eu já estaria na segurança de meu lar. Escreveria um diário, um poema, uma carta… E no outro dia pela manhã, roubaria uma rosa vermelha no jardim do condomínio e iria entregar a ela, um poema e uma rosa… Sonho mais que perfeito… Não custa nada sonhar, acreditar, não é verdade?
Mas a realidade não é assim tão bela e doce… Trago em minhas mãos uma rosa, e um poema de amor, anônimo, não a amo, mas algo mais forte me leva a buscá-la nas noites frias e tenebrosas, tantas vezes já saí em sua busca à luz do luar, que já começo a me sentir como uma parte da noite. Não hesito em sair, apenas para deixar em sua porta uma rosa e um poema.
Não esqueço a primeira manhã em que, afoita, ela veio me contar que tinha um admirador secreto… E me mostrar os lindos versos que recebera… Eu até ri daquele pobre poema sem rima, sem métrica… Mas ela disse que isso não importava, não esqueço suas palavras:
“-O que importa é o sentimento de quem escreveu o poema, e não a sua perfeição métrica, suas rimas ricas ou qualquer outra técnica.”
Que vontade louca de dizer simplesmente   -Fui eu quem escreveu!
Novamente um ruído vem me tirar de meus sonhos e me chamar de volta à realidade. Faltam apenas cinco minutos para meia-noite, as ruas estão desertas… Nossos prédios ficam próximos um ao outro, apenas uns dois quarteirões de distância, mas apesar de estarmos em São Paulo, a cidade que nunca dorme, essa região é deserta, principalmente nas noites frias de Junho.
Em frente ao seu prédio, espero uma distração do porteiro… Passei semanas estudando atentamente o sistema de câmeras, para poder entrar sem ser notada… Um automóvel chega, abre o portão da garagem… Aproveito a brecha e consigo entrar… Pé ante pé, vou subindo pela escada de emergência até o décimo andar. Deixo a rosa e o envelope, com um poema à porta da morada daquela a quem eu deveria amar, e silenciosamente, como cheguei, me retiro. Devo retornar rapidamente, tenho medo que meus pais acordem e percebam a minha ausência, não seria nada fácil explicar onde estava a estas horas…
 
É estranho, mas todas as noites quando saio de casa tenho me sentido observada, como se algo me seguisse, escondido no silêncio das trevas noturnas… É uma presença forte, quase posso senti-la, mas não consigo explicar o que é… Faz-me sentir tamanha angustia, e ao mesmo tempo, é como se nada pudesse me atingir…
Nem sei para que escrevo um diário, meus dias são todos iguais. O que pode acontecer de novo na vida de uma garota de dezesseis anos?
Hoje faz um mês que, religiosamente, a cada noite, encontro uma maneira de deixar o meu prédio e invadir o prédio dela, apenas para entregar uma rosa vermelha, símbolo da paixão ardente… Uma gota de meu sangue, que escorre dentro do meu coração a cada vez que a ouço falar dos garotos com quem ela fica…
Esse é o poema que escrevi para ela hoje… É meio tosco… Não sou nenhum Camões… Gostaria de saber brincar com as palavras, fazê-las ganhar vida… Mas não consigo… Enfim, o importante é que eu sei que ela gosta do que eu escrevo… Estive em sua casa hoje à tarde, tive que segurar minhas lágrimas de emoção quando ela me mostrou uma caixinha cor-de-rosa, onde guarda um caderno com todos os meus poemas colados, e também as rosas, para que sequem e fiquem para sempre ali… Ela me confessou que, aos poucos está se apaixonando pelo autor das poesias… Qual será sua reação ao saber que se trata de uma autora, sua melhor amiga e a única pessoa que será capaz de amá-la acima de tudo, neste ou em qualquer outro mundo?

Minha vida sem você é uma luz que
Está sempre apagada
Um barco perdido em

Alto-Mar
Mirante sem paisagem
Onde ninguém gosta de ficar, é flor sem
Raiz, pois seu amor é a raiz que me faz florescer…

O mais estranho em tudo isso, é que simplesmente, eu não amo Emanuela… Às vezes sinto que a mesma presença que me persegue nas ruas escuras é que me dita cada palavra que escrevo.  Até mesmo neste diário… Às vezes, quando paro e leio tudo o que escrevi, não reconheço minhas próprias palavras… A letra é minha, mas não fui eu quem escreveu… Algo me impulsiona a escrever, a sair furtivamente do meu quarto, do meu apartamento, a roubar uma rosa no jardim, a arriscar-me nessas ruas desertas e frias, a encontrar uma maneira de entrar sem ser vista naquele prédio e deixar uma rosa e um poema… O que pode estar acontecendo comigo? Dupla personalidade? Quantas eu sou afinal?

(Continua semana que vem)

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